segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Uma carta e 7 dias: a eficiência dos Correios e a pressa de uma vida

Segunda-feira. O despertador toca e você insiste em pensar que o barulho simplesmente faz parte de um sonho. Não faz. Você se levanta e diz:
- $#@%$#!$#@#.
Conta os dias que faltam para o final de semana. Se hoje é segunda, depois de amanhã será quarta. E quarta e sexta-feira não são a mesma coisa. Aliás, estão muito longe uma da outra. Exclama:
- #$@$#@#$@#$@. Vai demorar!
Sim, sim. Vai demorar.
Até a chegada do final de semana, você tem que viver da maneira que pode: trabalhando, estudando ou esperando (a sexta-feira).

Para mim hoje, as coisas não foram diferentes. O alarme tocou e eu pensei "já!?". Preciso era: ir à luta. Mas antes disso, resposta rápida para dúvidas básicas:

1 - Será que eu preciso tomar banho?
2 - Se precisar, será que dá tempo?
3 - Tenho roupa passada?
4 - Se não tiver, tenho alguma que não preciso passar?
5 - Se não tiver nem uma coisa nem outra, posso sair sem roupa?

Bom, na pior das hipóteses, saio com a roupa meio amarrotada mesmo. Porque, assim como Ronaldo não pode raspar a cabeça, não posso sair sem roupa.

Antes de começar o dia pra valer, precisava enviar uma carta pelo correio. Fácil. Imprimi os arquivos, preenchi os dados necessários, lacrei o envelope. Então, era só chegar à agência amarelinha e fazer o despacho (no sentido não-espiritual da coisa). Até então tinha feito tudo muito rápido, porque havia levantado um pouco atrasado. No caminho para os Correios, meu passo era veloz, o suficiente para não parecer que estava correndo. Até porque, sempre que vejo pessoas correndo pelas ruas, penso que elas querem ir ao banheiro (urgentemente). É constrangedor (para elas). Logo, não corro para não pensarem isso de mim.

Mas eu estava com a pressa habitual de quem sempre parece ter mil coisas para fazer. No caminho passei por uma senhora, que também tinha um envelope nas mãos, e percebi que se eu fosse mais rápido não teria que esperar muito pelo atendimento. Acelerei o passo.

Cheguei à agência. Aquela bagunça de sempre: pacotes por todos os lados, ninguém mandando carta, ninguém atendendo. Ao perceber minha presença, uma das moças no meio da bagunça disse para eu esperar um pouco. Eu esperei. Bastante. Tanto que a senhora que ficou pelo caminho, acabara de chegar à agência.

- Eu quero mandar uma carta!

Disse bem alto, meio que para todo mundo, meio que para ninguém. Eu acho interessante essa mania que algumas pessoas mais velhas tem de anunciar o óbvio. Às vezes parece simpático, outras vezes, irritante. Dessa vez confesso que foi simpático.

Alertada, a atendente veio em nossa direção e parecia buscar na memória alguma informação:

- Você chegou primeiro... disse ela apontando para mim.

Mas parecia que ela não tinha terminado a frase e eu já havia entendido o recado: Thiago, passe a vez.

- Pode atendê-la primeiro, disse eu, voltando os olhos para a senhora.

Cedi a minha vez, que de certa forma, não era minha por direito. Tem que existir compreensão também, que é mais poética que respeito... E olha que eu havia me apressado tanto. Antes de ser atendida, a senhora olhou para mim e disse:

- Obrigada! - e voltando-se para a atendente - Cola um selo pra mim!

Novamente óbvia. E novamente simpática. Perguntou quanto tempo demoraria para a carta chegar ao seu destino e descobriu que levaria sete dias. Antes de partir, disse novamente, dando um tapinha em minhas costas:

- Obrigada!

Fui então atendido e pude me livrar da carta. Depois que saí da agência, percebi que de nada adiantou eu ter me apressado tanto. A gente supervaloriza nosso tempo. E acha isso normal. No caminho de volta, a senhora, que eu ultrapassara para não perder tempo, estava muito na minha frente.

Isso tudo foi apenas uma lição para mostrar o meu egoísmo sobre o tempo. Tempo que não gosto de dividir, que sempre acho que vai acabar, que quase nunca disponho aos outros. O homem tem dificuldades para aceitar o desconhecido. O fato de não sabermos quando os nossos dias vão acabar faz com que sejamos tomados pela pressa e pela vontade de querer viver tudo ao mesmo tempo.

A carta que aquela senhora mandou era destinada a alguém de Campo Belo - MG. Percebi porque achei muito bonita a grafia de quem escreveu no envelope. E penso que talvez aquela seja uma carta para alguém que anseia por notícias e que só irá recebê-las daqui sete dias ou até mais. Enquanto isso, a famosa senhora também vai esperar. O que são sete dias para ela? E de pensar que fiquei irritado ao saber que o documento que eu enviei não poderia ser mandado por e-mail. Um documento sem valor sentimental, que nem anseiam por ele. Que, segundo a balança dos correios, pesa 0,00500kg de pura falta de interesse. O que são sete dias para mim?

Talvez envelhecer seja se desprender de todo esse egoísmo sobre o tempo. É saber que o slogan de viver a vida intensa e loucamente é, em geral, falso. E que é preciso saber esperar. Até que o tempo prove o contrário, o fim está longe, muito longe de chegar. Vida eterna, sobre o solo da Mãe Terra, para nós!

sábado, 29 de agosto de 2009

Quando o coração espera

eu me lembro das suas despedidas
antes de partir para Netuno
e gostaria de saber se as luas de lá
poderiam de alguma forma remeter
àquela que nos fez amantes no espaço
e as estrelas que não podemos ver
escondem mistérios desnecessários
quando eu quero mesmo saber o que
existe dentro de você
de tudo que não posso medir
no bilhete que deixei em seu bolso
você encontrará:
teu infinito sou eu
video

domingo, 23 de agosto de 2009

A maior torcida do mundo

Ontem, antes de dormir, me veio uma antiga lembrança envolvendo uma leonina de 8 de agosto, um irmão mais novo que ainda se maravilhava com as novidades do mundo, um vilão, uma corrida e um exemplo.
Eu, com 4 anos, e minha irmã, com 6, acompanhávamos minha mãe quando, nos finais da tarde, ela caminhava numa velha e pequena pista de pouso de aviões particulares, já desativada.
Numa dessas tardes, a minha irmã encontrou um dente-de-leão, aquela flor que se desfaz com o vento. Eu estava por perto no momento em que ela o soprou, imediatamente desmanchando-o por inteiro. Eu nunca tinha visto aquilo. Maravilhado e, ao mesmo tempo, enciumado, pedi para que ela encontrasse uma outra flor para que eu também pudesse desmanchá-la. No entanto, havia pouquissímas flores como aquela perto de onde nos encontrávamos. Por isso, eu comecei a fazer muita birra. Mas fazer o quê? 'Se acabou, acabou!', não era assim que a mãe falava?
Por falar em mãe, nós estávamos distantes dela. Então recomeçamos a caminhar e você, muito esperta, viu lá longe um dente-de-leão que, para os meus olhos de criança, chegava a brilhar. E eu, sem hesitar, devo ter berrado 'Kari, corre, vai lá pegar!'. Você começou a correr para trazê-lo para mim, mas um outro garoto, maior que você, percebeu que você buscaria a flor e começou a correr para pegá-la também. De repente, vocês estavam apostando uma corrida em busca do dente-de-leão, a sonhada medalha de ouro. Naquele instante, o meu coração de criança começou a torcer muito por você, que corria o mais rápido que podia para alcançar a flor. Eu estava eletrizado, sustentando uma fé imensa de que você traria o dente-de-leão para mim e eu, num sopro de vitória e contemplação, iria descobrir a sensação de desfazê-lo. Eu me lembro de ter gritado 'Vai, corre!!!'. Eu era um torcedor mirim com uma esperança gigante. Já tinha alguma noção de justiça e julguei que aquele menino, por ser grande, já devia ter soprado flores antes. Mas eu não. Era a minha vez então...

Mas não foi assim.

O garoto era muito veloz e, por muito pouco, chegou na sua frente. Alcançando a flor, ele apenas a destruiu com as mãos. Acabou a corrida, acabou a flor, nem existiu o sopro. Sabe a única coisa que restou?

A torcida.

Eu fiquei tão entusiasmado com a corrida, que a birra passou. Não te culpei, você não se lamentou. Apenas fomos para perto de nossa mãe. Depois desse episódio, você correu muitas outras vezes por mim. De lá pra cá, também tive que aprender a correr por conta própria e a descobrir o sabor de vitórias e derrotas. E de tudo o que eu posso guardar, você é o meu grande exemplo. Eu me orgulhei muito de você naquele dia, tanto que nunca o esqueci. E eu continuo me orgulhando. O tempo passou, mudamos de cidade, ganhamos outro irmão... Talvez você possa pensar um dia que ninguém está torcendo por você, que as coisas não vão melhorar, que tudo está acabado. Por precaução, sempre tenha em mente: você é tudo pra mim. Os momentos de tristeza são como aquele dente-de-leão. Duram muito pouco.



Fim das Férias




Início da Saudade

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Velha bola de basquete ou Entropia

Aqui em casa existe um não-cômodo, que aloja objetos, livros e outras papeladas que se mostram inúteis (até o dia em que são jogados fora). Confinados, estes objetos aguardam a decisão do júri - no caso, minha mãe - sobre o seu triste destino. No não-cômodo ainda existe uma velha penteadeira, que é exemplo supremo do que já foi exposto aqui: querida demais para ser jogada fora; feia demais para decorar qualquer quarto.
Desde a última reforma da casa, quando um dos espelhos funcionais acabou sendo retirado, passamos a utilizar o espelho da velha penteadeira para escovarmos nossos lindos cabelos - acabo de tirar uma nota 10 pela breguice dessa frase. Pois bem. Eu estava acalmando o meu cabelo - que de tão rebelde, um dia irá fazer uma rebelião e deixará a minha cabeça em chamas - quando percebi, entre uma boneca velha e a maleta da câmera filmadora do meu pai - que registrou os mais alucinantes casamentos da nossa família e agregados - uma bola enrolada em um saco de lixo. Fiquei bastante curioso porque, pela transparência do plástico velho, aquela parecia ser uma bola de basquete que havíamos comprado há quase dez anos e eu imaginava que ela não existisse mais - afinal eu e meus irmãos éramos uma máquina de destruição. Desenrolei o saco plástico e confirmei a suspeita. Fui tomado por uma felicidade e um sentimento de fuga imenso. Sem hesitar, procurei uma bomba de ar para inflar a velha bola, que estava quase vazia e bastante ressecada. Terminei o serviço e fui até a varanda, não só para testar a velha bola, mas para ver como eu estava fisicamente. Obviamente, a bola estava péssima. E eu também. Quase não quicava, despedaçava mais e mais, voltava a esvaziar - claro, a bola. E eu também.
Depois de algumas passadas, vi que ela não resistiria e que um péssimo atleta com uma péssima bola constituem um péssimo passatempo. Então não havia outra saída: comecei a me lembrar dos tempos em que éramos bons, ela e eu, cada um executando a sua função. E também comecei a perceber como o passado é importante. De pensar que quando eu brincava, aquela bola parecia durar para sempre. E agora ela estava ali, sem função, sem graça, sem valor. E pode parecer bobo, mas costumam dizer que a gente perde o medo de ser ridículo quando começa a ficar maduro: eu tive medo de ficar tão inútil quanto ela. Talvez tenha sido este o motivo que fez com que eu trouxesse a velha bola para o meu presente. Ela veio como um aviso que dizia 'cuidado'. Mas que também implorava 'desista de mim, olhe para frente, eu não sirvo mais'. E depois do que vivi hoje, eu vejo que o passado está intimamente ligado à função de avisar. Mas sinto que ele se despedaça e não pode me acompanhar para sempre. Acho que é por isso que a gente vai perdendo a memória. Eu poderia pedir milhares de vezes para você não se esquecer de mim, mas não tenho este poder.
Guardei a velha bola no mesmo cantinho em que a encontrei. Agora, cabe ao júri decidir se ela vai ou não para o lixo. E eu vejo que o maior presente que se pode receber é a honra de ser inesquecível para alguém. E quem iria imaginar que o desimportante não-cômodo é a memória da minha casa...

domingo, 16 de agosto de 2009

Porque ele deu o que falar

A visita do meu priminho foi algo maravilhoso para nós. A casa ganhou, ou melhor, perdeu muitos anos de vida. Ficou mais jovem, mais agitada e muito, mas muito mais barulhenta. Isso porque meu priminho é viciado em filmes e fala muito alto, a ponto de pensarmos há algum tempo que ele fosse surdo. Mesmo se você estiver ao lado dele, ele irá gritar ao te responder. Mas isso é mania herdada dos meus barulhentos parentes por parte de mãe. Se Elisângela está na sala e quer falar com Leandro, que está na cozinha, ela não se levanta e ele fica onde está. Eles irão conversar, mas cada um no seu canto. A gritaria é mais nítida que som de tv digital.
Não estávamos mais acostumados a ter visitas com tão pouca idade, então houve uma sensação de renascimento para nós. Não quer dizer que tenha sido puramente prazeroso. Criança, de fato, dá muito trabalho. E não sei se vocês já perceberam, mas em uma casa, a criança está em todo lugar. Não havia um cômodo imune ao meu primo, onde pudéssemos ler ou ter um pouco de silêncio. Sem falar que ele dominou a programação da tv, o videogame do meu irmão, o computador... As crianças de hoje em dia estão demais. E as de antigamente também. Criança é criança e ponto.
Superamos muito bem o fato de termos as nossas escolhas limitadas para deixá-lo mais feliz. Junto com ele, vieram minha tia e minha vó. Foi um prazer tê-las aqui e abrir mão do sossego constante do nosso lar, afinal, elas são pessoas que dedicaram muito de suas vidas por nós. Mas falarei de cada uma delas em outra oportunidade.
O que eu mais gosto do meu primo é que ele é muito comunicativo e não sou eu quem luta incessantemente pela atenção dele, nem o inverso, mas ele acaba me envolvendo em suas conversas e vontades de criança de maneira muito natural. Ele me faz interagir em um universo que eu jurava ser incapaz de voltar a pertencer.
O mais interessante são as situações que ele cria. Sem um pingo de vergonha ou malandragem, ele se mete em muitas confusões. E foi isso que me levou a criar este texto: a sua última travessura aqui em casa.
Fiz uma viagem rápida a Uberlândia, para apresentar um trabalho, e lá comprei algumas lembranças para os nossos visitantes. Para o meu primo, comprei um porta-retrato que tinha na moldura um garotinho muito parecido com ele e para a minha vó comprei um cristal com uma base luminosa que, de uma forma inusitada, representava Jesus numa boate. Era um charme. Fascinado pelas luzes de cores aleatórias, meu primo logo mostrou interesse pela prenda alheia. Mas não podia. "Presente é presente", lhe foi explicado. Ele ficou emburrado, andando de um lado pro outro, com uma cara desconfiada. Como minhã irmã iria levá-lo a um passeio, minha tia deu a ele algum dinheiro. E não é que ele apareceu beliscando a minha vó com uma nota de vinte reais, cochichando algo que, no momento, era particular entre eles. Mas minha vó, a procriadora dos altofalantes da família, foi logo alertando em alto e bom tom:

- Vê se pode uma coisa dessas, o menino quer comprar o meu presente! A vó não vai vender não!

Nosso silêncio confuso foi logo quebrado por gargalhadas que se cruzavam desesperadas. Com a negociação exposta, ele insistiu:

- Ah vó, me vende. Que coisa!

E foi assim que o suborno mal sucedido foi revelado. Meu priminho fechou com chave de ouro a sua saga de armações nessas férias que, sem sombra de dúvida, vão deixar marcas eternas em nossas vidas.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Quando o homem se desfaz

Eu confesso.
Para quê?

Tem crescido o número de pessoas que encontram no anonimato da internet um refúgio para falar sobre as suas aventuras proibidas. Não muito distante, as autobiografias de pessoas renomadas (ou não) surgem no mesmo cenário da confissão como uma forma de redenção a boatos, verdades e mentiras que rodeiam o universo dos famosos. Mas em meio a tanta informação, qual a linha que separa a realidade da dissimulação?

Revelando a identidade ou não, tais publicações têm um único propósito: confessar. Nos moldes religiosos a confissão aparece como uma ferramenta de libertação e autoavaliação pela busca do tão sonhado perdão. O que pode também ser estendido ao cenário social: confessamos porque não suportamos. Guardar um segredo é difícil. E só é segredo aquilo que nasce dentro você e só você sabe. Não existe segredo dos outros que você conheça.

Mas para revelar um segredo, muitas vezes nós mentimos. Não é proposital. Sabe a sensação que tenho? É que o segredo tem uma forma dentro da gente e outra quando tentamos colocá-lo para fora. Usamos jogos de palavras para amenizarmos a dor, o constrangimento, o ódio e acabamos desvirtuando o segredo. Isso porque só temos coragem de confessar quando o perdão é viável. Tentamos invocar a piedade, despertá-la dentro daquele que nos ouve. Então, pode a confissão ser honesta e ao mesmo tempo não ser verdadeira? Ou carregar uma verdade que está além dos limites que as palavras conseguem superar?

Posso me lembrar perfeitamente da minha primeira e única confissão a um padre. Foi, sem sombra de dúvida, a lição mais difícil da catequese. Esperei por horas e quando chegou a minha vez, eu fiquei sem chão. Como eu, na época um moleque endiabrado, com o capeta no corpo como dizia minha mãe, iria falar dos meus infinitos pecados para o padre, que na minha visão de moleque atentado, era um quase-Jesus-Cristo-puríssimo em pessoa? Pensei "Meu Deus, se ele souber de tudo, eu vou pro inferno". Depois lembrei da advertência da catequista: o padre pode não saber, mas Deus sabe de tudo. T-u-d-o". E imediatamente pensei "Deus, olhahein. Bico calado. De fofoqueiro, já basta Judas". E chegou a minha vez. Era a hora da confissão. Eu tentava ferozmente me lembrar dos 7 pecados capitais e dos 10 mandamentos. O que viesse era lucro. O padre perguntou algumas trivialidades e só então pediu para que eu me confessasse. Eu devo ter dito apenas três coisas. A primeira, da qual me recordo muito bem, foi a de ter acusado falso testemunho. Era muito comum nas brincadeiras de esconde-esconde. A outra deve ter sido gula. Básico, você já viu magro comer pouco? E por fim, preguiça. Terminada a confissão, o padre pediu pra que eu rezasse 5 vezes o Pai-Nosso e a Ave-Maria. Mas eu estava com medo, afinal, eu não tinha me confessado direito. Fui lá e rezei 10 vezes. Ainda arrisquei uma Salve-Rainha, a mais difícil de todas! Que alívio. Então, era só não cometer mais pecados e manter Deus em silêncio que o meu passe pro Céu estava garantido.

E confessando isso pra vocês, sabe que me bate uma pena.
É uma pena a gente crescer. E eu sinto saudade também. Dá vontade de voltar no tempo e dar um abraço bem forte naquele Thiago endiabrado que, mesmo cheio de pecados, era muito feliz.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Alô Mulheres!

Vocês estão sendo muito mal representadas. No Fantástico, programa da Rede Globo, o quadro Liga das Mulheres mostra o comportamento feminino e alguns problemas ligados a ele. Nas últimas semanas, tem sido mostrada a história de Kátia, bancária, loura e louca para casar. A missão da liga é descobrir por qual razão Kátia está encalhada.
Até ai tudo bem. Muita gente está encalhada e não sabe bem o porquê. Meio mundo anda reclamando que está a procura de um relacionamento sério, mas sem sucesso.
Kátia procura seu amor em baladas fervorosas, se veste com roupas mínimas, tem um papo nada a ver e já chega botando pressão: eu quero casar!
Não há homem imune ao susto. Fuga na certa. Ela me lembra aquela música do Cazuza, genial "A tua piscina tá cheia de ratos, tuas ideias não correspondem aos fatos".
Kátia está ferrada. Não sendo suficiente estar no lugar errado, na hora errada e com pessoas erradas, ela vem recebendo a ajuda de mulheres que se vestem muito bem, modernas no vocabulário mas que na hora do vamos ver... são umas tapadas. Não incentivam Kátia a ser quem ela é, tentam mudar o visual e a personalidade da moça, atacam-na com críticas melosas e acabam transformando a bancária em um personagem ridículo e caricato que precisa ser exterminado do espaço.
Seguido a isso, arrumaram para Kátia um encontro de solteiros. Ela pôde bater um papo master num tempo recorde de 5 a 7 minutos com um cara que, pelas suas intenções, tem tudo para ser seu marido. Nossa, existe amor no fundo do poço?
Kátia está se transformando em uma nova mulher que, do ponto de vista da liga das tapadas, é dona da receita do sucesso. Mas essa nova mulher, incoporada por Kátia não possui nada da essência daquela loura e louca pra casar que iniciou o quadro. Com certeza no final da saga veremos a bancária com um homem apaixonado por uma Kátia que não é quem aparenta ser. Ela é o resultado de uma ilusão, de uma transformação forçada e forjada pela mídia. Kátia não é.
Uma antítese à liga das mulheres foi mostrada no programa Happy Hour, do GNT, também da Globosat. No programa foi discutido relacionamentos que começam pelo mundo virtual, a opção de estar solteiro e duas coisas que eu particularmente adorei. A primeira foi que não temos o poder de condenar ninguém, antes mesmo de assumirmos uma relação, a ter algo sério conosco. O compromisso prévio com desconhecidos é sempre falho e pode causar o efeito contrário. Alguém que tinha tudo pra ficar ao seu lado a vida inteira acaba te dando um pé na bunda logo na primeira semana por causa do seu desespero em forçar algo que deve acontecer naturalmente. O outro ponto da discussão que eu gostei bastante foi o fato de sempre vermos o amor como a causa dos relacionamentos, quando na verdade ele é apenas uma consequência, ou de uma maneira mais romântica, uma recompensa.
Então, se o amor não segue uma linha lógica ou racional, não há liga de mulheres com cabelinho dos Jetsons que pode solucionar o caso. Cada um tem que ser dono do rumo que o coração escolhe. Uma ajudinha sempre é boa. Mas essa ajuda tem que vir para valorizar o que você tem de melhor, vir de pessoas que sabem das delícias da sua companhia. Não de pessoas que querem te mudar por inteiro pra ver se chove na sua horta.
Amor e meteorologia são ciências próximas. Não há tempestade que obedeça à moça do tempo.

domingo, 9 de agosto de 2009

Para você, que é tudo pra mim

Foi de noite que Martim teve um pensamento mais ou menos assim: se a história de uma pessoa não seria sempre a história de seu fracasso. Através do qual... o quê? Através do qual, ponto. Em seguida, relutante em utilizar esse pensamento, refugiou-se no pensamento sobre seu filho. Pois o amor pelo seu filho era uma das verdades de que ele mais gostava.

- A maçã no escuro, Clarice Lispector


Pai, duas coisas não cabem no poema: o preço do feijão e o meu amor por você.

AMOR:
a.mor
sm (lat amore) 1 afeição. 2 ligação espiritual. 3 admiração. 4 respeito. 5 amizade. 6 benevolência... Infinito tudo o que sinto pelo meu pai.

domingo, 2 de agosto de 2009

Teste de Hipótese

Se trabalhasse em um programa de rádio, começaria tocando músicas do Legião ou então do Djavan, intercalaria com algum rock internacional dos anos 80 ou quem sabe Adriana Calcanhotto e terminaria com algo contemporâneo e clichê, como Halo ou Closer... 'to own me, to control me... and I just can't bring myself away but I don't want to escape... I just can't stop... I just can't stop!'

Se fosse professor de literatura, indicaria de cara um livro bem triste, Nada de novo no Front ou então alguma obra do Graciliano. Depois, indicaria Clarice ou Fernando Sabino e por fim, alguma revista de fofoca, daquelas em que nem é preciso folhear: já vem tudo escrito na capa. Você já sabe que o Raj vai largar da Maya pra ficar com o Bahuan, que está grávido do Opash, que emagraceu 8 quilos em uma noite sem fazer dieta - pasmem - apenas com a roupa e a maquiagem certas! Mas na verdade você acaba levando a revista por causa do encarte de receitas que contém, por exemplo, o segredo do bolo de acabaxi mais calórico e fofinho desde os tempos em que a Palmirinha era moça. Abacaxi tem semente? E como que faz pra plantá-lo? Bom, eu perguntei pra minha vó e ela disse que eles usam aquela "corôa" para plantá-lo. Não sei se é verdade (desculpa vó). Mas a minha vó é daquele tipo de pessoa que quando não sabe alguma coisa, inventa. Eu sou assim também. Acho que é por isso que quase nunca entrego uma prova em branco. Pausa para meu riso compulsivo. Pausa para o riso contido do professor. Um minuto fúnebre de silêncio pela minha nota baixa.

Bom, voltando às hipóteses.

Se fosse dar dicas de cinema, escolheria de imediato os filmes do Chaplin, pelas ideias fundamentais que ele passa, tanto para o cinema quanto para os humanos. E acho que terminaria com As Branquelas ou Vestida para Casar. Também recomendaria algum filme argentino, pra que as pessoas percebessem o quanto nosso país parou no tempo. Os nossos hermanos sabem muito de cinema. E sabem muito sobre os problemas da sociedade deles também.

E eu me pergunto o porquê de tudo isso. Acho que é apenas para dizer o quanto é difícil se definir. Até nas pequenas coisas. E que não há nada de sobrenatural em ser ambíguo. Acho que a gente só tem a perder quando joga em um time só. Por exemplo, quem aqui já foi vilão, mesmo que sem querer?

Odete Roitman: _o/
Nazaré Tedesco: _o/
Thiago: _o/

E quem já fez o bem, sem olhar a quem?

Mahatma Gandhi: _o/
Thiago: _o/
Odete Roitman: ¬¬' ... suspense ... _o/

Algumas coisas nós não precisamos encontrar. Mas devemos saber que elas existem. Por exemplo: dentro de você há uma paixão imensa que irá despertar quando vier a pessoa certa. Mesmo que esta pessoa não exista, deve existir a paixão. Assim como o desejo, o ódio, o pudor, o sexo descompromissado, o amor eterno, os extremos. Porque de um extremo ao outro eu estou dentro de mim. E eu sou um universo inteiro. Eu acho que a grande busca sempre começa dentro de si próprio. Devorar você: esta é a lição de casa.