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domingo, 20 de setembro de 2009

Análise, Simulação e Controle

É gostoso escrever com música. Parece que durante a noite ela fica ainda mais alta. Não precisa dividir espaço com o som dos automóveis e dos móveis imóveis sobre o assoalho exausto do meu quarto empoeirado.

"No corcovado quem abre os braços, sou eu
Copacabana esta semana, o mar, sou eu
e as borboletas do que fui pousam demais
por entre as flores do asfalto em que tu vais..."

Logo eu, que nunca fui ao Rio, acredita? Eu que não sou personagem de novelas no Leblon, que não tenho relações extraconjugais, que não me chamo Helena e nem gostaria. Aliás, a minha TV é de 20 polegadas que enquadram a falta de identidade com a imagem projetada em movimento de um mundo distante dentro de cenas que não falam por nós. Por isso idolatro. Fantasio com a reportagem sobre lugares em que não estive, altura que jamais alcancei, buraco que eu nunca cavei. Metrô. Já andei. Já me xingaram na lata iluminada. Achei o máximo porque o filho da puta sou eu, que tenho educação. E é tudo assim e é tudo normal. "E as paralelas dos pneus na água da chuva são duas". E as bicicletas, sem paralelas não indicam solidão. Garupa. Assim como quando me carregavam para chegar até à casa da vó. Pertinho. Do coração. Pra que metrô? Pra que motor? Segurar com as duas mãos. Pra não cair. Mas queria levar um brinquedo. Não tinha cestinha. Não tinha como levar. Tia, eu não consigo segurar no banco. Tinha que abraçar. E a parte ruim era quando tinha que descer da garupa.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Eu, como vocês sempre me encontram

Eu escreveria sobre saudade, mas decidi escrever sobre Deus. Talvez cause o mesmo efeito, porque Deus pra mim é tudo o que eu sinto ou é oposição ao que eu sinto. É desta forma que prefiro vê-Lo, criá-Lo, tê-Lo. É o Deus que me serve, que veste bem. É meu. O seu, você trate de inventar. Ou perceber. Sempre que eu O consulto, Ele me diz para permanecer sereno, ver a vida passar, sorrir quando for chamado... "É pra ter o coração tranquilo Thiago. É pra aceitar a dor. É pra ser forte, ser verdadeiro, metade menino, metade guerreiro. Mas tentar ser leal por inteiro. Ser fiel aos pressentimentos. Esquecer da lágrima na garganta e falar algumas palavras que te arranham, mas que são necessárias, que tornam a vida evidente. É não contrariar o desejo. É amar de verdade. É não mentir. É ser bom gratuitamente. É sentir falta. É desistir, quando a sabedoria é maior que a ilusão. É brilhar, mesmo quando o dia não foi bom. É ser luz no caminho de quem está perdido e precisa de você. Mesmo sem saber onde você mesmo está. É se entregar, se render a tudo. É ter esperança, depositá-la naquilo que você acredita. Desejar com os olhos bem fechados, pra que as lágrimas não escapem. É saber que amanhã vai ser melhor, que depois de amanhã você estará de volta. E mais do que isso Thiago, é preciso você saber que é tão forte e não percebe. É preciso saber Thiago, que antes você escrevia para se esconder. Hoje, você escreve para ser feliz, se mostrar, expor o desejo, a sua imoralidade tímida, mas irresistível por vezes. Marginal, sem ser bandido. Extrovertidamente introvertido. Contraditório. Incompleto. Mas muito, muito, muito alegre. Porque a solidão já foi. Ficaram só os textos. E você me surpreendeu porque você não se despediu. Você continuou aqui porque foi fiel ao instrumento que te libertou. E você tem sido assim com a vida. Então, fica Thiago. Mesmo que você faça as malas. Mesmo que você antecipe a saudade. Mesmo que embarque. Fica. Porque eu preciso de você". E esse texto é algo que não posso explicar. Porque o Deus que eu criei me deu o direito de ser confuso. Então, Ele também o tem. Mil beijos. Amamos vocês =)


Perceber aquilo que se tem de bom no viver é um dom
Daqui não
Eu vivo a vida na ilusão
Entre o chão e os ares
Vou sonhando em outros ares, vou
Fingindo ser o que eu já sou
Fingindo ser o que já sou
Mesmo sem me libertar eu vou

É Deus, parece que vai ser nós dois até o final
Eu vou ver o jogo se realizar de um lugar seguro

De que vale ser daqui
De que vale ser daqui
Onde a vida é de sonhar?
Liberdade!*

*Marcelo Camelo

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Vamos brilhar hoje?

Respirei e sorri.
Coração desacelerando.
Fones no ouvido.
Dancinha super desajeitada nos pés.
Ao som de "tchubaruba".

E eu de braços abertos, girando, simulando aquele momento que antecede o abraço.

Alegria momentânea.
Caiu a ficha.
Sou tão especial.
Bobo é quem não vê.

Momento "dane-se o mundo porque eu sou o mais lindo". Olhei pro meu corpo e vi que isso é quase verdade. Fiquei sorrindo pro espelho só pra ser correspondido. Meu sorriso está lindo hoje... Imagina, são meus olhos, que querem ver o próprio brilho. Castanho simples. Simples, como tudo deveria ser. Como tudo de fato é. O que eu preciso é de uma vida seminua de filosofias.
Fiquei seminu e me olhei no espelho de novo.
Que escândalo que está o meu corpo.

Sibilei gostoso: gos-to-so!


Porque sou mesmo. Essa barriguinha anexa que não combina com meus braços fininhos é um arraso. E digo mais: Gisele Bündchen elogiaria. Pois sim! Pagaria pra ver.

Sabe por que Deus existe?
Porque tem que existir alguém que me admire, que compartilhe essa gostosura que é ser eu mesmo, que veja de camarote. E que faça esse garoto de braços finos se sentir perfeito, porque na verdade ele é.

NÓS SOMOS!


Então se prepara, respira e sibila comigo:

GOS-TO-SOS!

___________________Bastidores___________________


Enquanto eu estava com os fones fazendo a dancinha misteriosa, minha vó me viu todo feliz e perguntou:

- É Zezé di Camargo?
- É doido, Deus me livre!

Risadas pela sala.


PáraMoço, NADAmeTira
EsseRisoDoRosto

Porque se eu pudesse...

...baby, eu eternizaria você e todos os momentos em que você restaura minha paz.

Estou escrevendo neste momento para agradecer aos meus amigos. Por motivo nenhum, aparentemente. Só satisfazendo uma vontade noturna de dizer que a amizade sincera me faz forte pros amores instáveis. Eu estava tão frustrado, cultivando uma não-esperança e vocês vieram. Conversaram. E só. Tudou ficou bem. Estou tristinho um tantinho, mas é normal. Sabe aquela música "Raindrops keep fallin' on my head, but that doesn't mean my eyes will soon be turnin' red. Cryin's not for me 'Cause I'm never gonna stop the rain by complainin'... Because I'm free, nothin's worryin' me". Bom, caso não a conheçam, posso dizer que a música é triste mas com uma batida muito alegre, que traz esperança. Algo como "tudo passa, tudo passará". A gente aprende com tudo. Mesmo. Eu aprendi que se a gente guarda muito o ciúme, a gente morre. Aquilo é veneno. E vi também que a gente é fantoche nas mãos de quem a gente supostamente gosta e de quem supostamente não gosta da gente. De nada adianta as frases de auto-ajuda, horóscopo, sortes de orkut: o amor-próprio se dissolve, some e você vira só uma pecinha de um joguinho qualquer que, mais cedo ou mais tarde, você vai perder. Estou em uma operação-resgate. Eu juro que não quero ser dramático, porque não há nada mais cansativo do que ouvir alguém que não passa fome, que tem onde morar, que tem cnh e que tem um blog dizer que está sofrendo. Sei que cansa, por experiência própria como leitor compulsivo que costumo ser. Então, temos aqui um post sobre a tentativa-de-não-parecer-triste-aquilo-que-de-fato-não-o-é. E sendo assim, não sendo, termino dizendo: eu só amo vocês.

Dedicado a TODOS vocês: presenças de luz, que iluminam esse meu caminho confuso e que nunca me deixam chorar. Porque se eu pudesse baby...

sábado, 13 de dezembro de 2008

o Sol não nasceu hoje

Às vezes peço à consciência para que eu me esqueça de todos os mortais e, por segundos apenas, lembre só de mim. Das minhas preocupações. Dos meus problemas, que às vezes nem existem.
A calçada estava quente, a vida era uma miragem. O asfalto ao longe parecia estar molhado e no fio de luz havia uma daquelas bolas, que se parecem com as de basquete. Quando eu era criança eu chorava no banco de trás do carro porque eu pedia pro meu pai pegá-la e ele dizia não ser possível. Olhava para o asfalto ao longe supostamente molhado e perguntava pra minha mãe se lá estava chovendo. Não estava, ela dizia. Eu acreditava só quando a gente chegava bem pertinho.
Um outro dia, eu estava descalço e fui correr na rua só pra preocupar a minha vó. Eu corri no asfalto quente, cheguei no meio da rua e não consegui voltar, meus pés ardiam e eu gritava, pedindo ajuda. Minha vó foi lá correndo e me pegou no colo. Nem brigou comigo.
Hoje eu não tenho coragem de andar descalço nesse imundo asfalto. Nesse chão de homens crescidos.
E ainda hoje, no carro, eu posso sentar nos bancos da frente. Posso até dirigir.
Mas, quando eu deixei de ser criança?
Eu ainda penso nas bolas de basquete, no asfalto molhado que de perto estava seco, na vó, nos gritos. Eu queria nascer de novo. Viver tudo de novo. E escrever tudo isso de novo.
Isto tudo não é nada, isto tudo é normal. Hoje é só um dia ruim. Dezembro tem 31 dias, este ano tem 366. Um deles tem o direito de nascer ao avesso. Mas só um. No mais, o ano já está quase acabando. A vida, não.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Aleatório

É difícil escrever nas férias. Aliás, nos dias mais conturbados, com provas, projetos e trabalhos, me dá uma vontade louca de escrever, de tentar esquecer. Esquecer o quê? Não lembro, não sei dizer (começo a acreditar que isso realmente funciona). Esse espaço me faz muito bem e tem revelado coisas que eu ainda não sei se pertencem a mim. Sentimentos emprestados dos vários Thiagos descartáveis que os segundos insistem em matar.
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Uma coisa que eu aprendi é que eu não devo me sentir dono dos textos que eu fiz. Na verdade, não devo me sentir dono porque não o sou, de fato. Quando me vem aquele desejo de apagar alguns textos velhos, que nem combinam mais com meu estado de espírito, baixa uma luz que clareia a razão e me manda parar, dizendo: você não tem esse direito. Os Thiagos do passado, mesmo ausentes, devem ser respeitados. E é bom mater as lembranças. Talvez algum dia eu sinta saudade.
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Você já teve a sensação de ler algum escrito seu e dizer "como isso é ridículo!". E já se sentiu frágil por saber que alguém pode ler aquilo que você escreve. Esses dias eu me vi com medo de algum conhecido ler os meus textos e pensar alguma coisa de mim. Coisa desagradável, é claro. Depois eu pensei "isso é mais ridículo que os textos que eu quis apagar". Que digam, que pensem, que falem.
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Só diversificando, ontem eu cansei do quarto, fui dar uma volta na sala e vi uma cena da novela em que a mãe falava pra filha algo do tipo "minha filha com esse cabelinho colorido, toda moderninha e com esse pensamento velho... sabe o que eu descobri? que eu não tenho preconceito... e eu que me achava careta!". Eu não sei ao certo sobre o que elas estavam falando, mas eu adorei. Esses jovens com tantos penduricalhos, cabelinho arrepiado e/ou bagunçado ou comprido e/ou colorido, camiseta do Che Guevara, do Seu Madruga, enfim... independente do rótulo, qual é a qualidade do produto? Eu digo isso porque eu me vejo tão conservador e moralista às vezes... chega a dar nojo. E eu começo a achar que isso não é algo exclusivo meu. Eu não tenho posses, logo, isso deve ser comum.
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Quando eu tinha uns poucos anos minha mãe cantou uma música que era assim " e joga bosta na Geni, ela é feita pra apanhar..." e eu fiquei horrorizado. Como alguém canta uma coisa dessas? Não acreditava que a música existisse. Na crueldade da dúvida, minha irmã, também perturbada com a afronta da música, foi perguntar pro meu pai se ele conhecia a canção. Pra quê? O meu pai não só confirmou, como cantou todo o trecho "Joga pedra na Geni. Joga bosta na Geni. Ela é feita pra apanhar. Ela é boa de cuspir. Ela dá pra qualquer um. Maldita Geni!". Eu não acreditava e nem sei o porquê disso. Moralismo, talvez. Hoje eu acho tão estúpida a minha incredulidade.
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E eu acho que criança tem que saber de tudo mesmo. Tem que ter as respostas verdadeiras. A gente foi criado naquela coisa de faz de conta, de cegonha, de tv censurada, música dos dedinhos e a conseqüência está ai: Somos uns tapados! Devemos viver em um mundo revelado.
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Mas faz um tempo em que não se fala em revelação, ainda mais em tempos de câmera digital e coisa e tal. Somos todos moderninhos, afinal.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

E quem segura o ponteiro do relógio?

Hoje é meu aniversário. Mas não vou falar do 25 de novembro deste ano. Ele é banal. Eu vou falar dos 20 anos que preenchem a minha vida.



E se hoje é meu aniversário, eu vou falar de quem? Da minha mãe e do meu pai, é claro.

Ela me amou antes mesmo de me ver. A nossa mãe não sabe nada da gente. Isso, claro, antes da gente nascer. Depois que a gente nasce, ela sabe de coisas que a gente jamais imaginaria que ela pudesse saber. Mãe, você é tão inteligente. E você me censura quando eu não estou certo. Inclusive, você é o meu conceito daquilo que é certo. Eu já mordi as suas pernas enquanto você tentava cozinhar pra mim, eu já te arranhei inteira, eu já te machuquei, falei coisas que você não gostou e você me ama mesmo assim. Todo dia. Como pode?? Eu tenho certeza que eu não fui a criança que você gostaria que eu tivesse sido. Mas desde então eu tenho mudado por você, e por todo mundo que me ama. Quando eu penso o quanto é difícil aceitar as minhas limitações eu acabo lembrando que você também deve saber dos meus sofrimentos. E isso deve doer tanto em você. Se eu te perguntar hoje se eu sou o filho que você queria ter, você com certeza irá dizer que sim. Mas, sabe, eu não sou o filho que você merecia. Eu acho que você merece tanto. E eu me perco ao tentar reconhecer se isso é humildade, amor ou verdade. Eu confio tanto em você. Lembra que, quando eu queria um brinquedo, eu falava pra você pedir pro pai, no meu lugar...
E o pai, está na fazenda? Eu sinto tanta falta dele. Eu quebrava todos os meus brinquedos. E ele arrumava. Eu me sentia tão seguro em brincar por causa disso. Se alguma coisa estragava, ele dava um jeito. E até hoje as coisas são assim. Ele resolve tudo pra mim. As minhas contas estão todas no nome dele, as minhas compras também. E a gente é tão parecido... Quando eu era mais novo, eu não entendia as opiniões dele sobre política, religião, trabalho. Deus, hoje eu vejo que as opiniões dele são as minhas. Sem mudar um pingo no "i". Eu achava que ele era tão bravo quando eu era criança. Talvez fosse. Hoje ele está tão mais calmo. Eu também. Pai, se eu fosse mais maduro há alguns anos, eu teria me apaixonado por futebol, só pra gente poder conversar mais.
Eu, tão dependente de vocês, fui escrever um texto sobre mim e não consegui. Mas essas linhas que falam sobre vocês, no fundo, falam sobre mim. Enquanto os românticos gritam, o amor de pai e filho é tão silencioso. Por isso resiste mais. No silêncio a gente percebe melhor a vida. Então, eu resumo estes 20 anos em silêncio, para que permaneçam preservados e para que não atrapalhem a vinda dos próximos anos...
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração...

sábado, 22 de novembro de 2008

Dicionário Incompleto dos Sentimentos Perdidos

O conceito de amor, como um todo, não pode ser escrito.
O sentimento não pode ser convertido totalmente em palavra.
Mas, uma parte do conceito sempre pode ser expressa, ainda que as falhas sejam inevitáveis.
Amar é deixar o egoísmo na porta, junto com os calçados imundos, antes de invadir a casa.
É deixar de ser inteiro. E passar a ser metade.
Por ser assim, amor não combina com liberdade.
Basicamente, viver é fazer escolhas.
O que, de fato, não é fácil.
O silêncio dos traídos, o canto dos saciados.
Tudo, então, é amor. É sintoma de amor.
E eu, que pensava que não amava, me vejo tomado por você.
Eu compartilho o abstrato, o concreto, o meu medo,
o meu corpo imerso em desejo.
Eu compartilho aquilo que vejo.
Eu não alimento as tuas feras
para que enfim possa ser devorado por elas.
Eu te amo.
Por vezes calado.
Mas sempre te amo.

domingo, 19 de outubro de 2008

. faz de conta que ainda é cedo .

Domingo é o dia em que eu mais sinto falta de casa. Era dia da amargura coletiva. Meu pai dormia no quarto, minha mãe dormia na sala. Meu pai levantava logo. Eu ficava no computador vadiando. Ou então minha irmã pesquisava alguma coisa, ou vadiava também. Eu e a minha irmã ficávamos no mesmo quarto. Meu irmão jogava videogame ou via o jogo. Depois ia parar todo mundo na sala. A gente via as videocassetadas, um pouco do Fantástico. Às vezes meu pai via um filme de faroeste na tv fechada, mudava de canal toda hora... tudo isso pro desespero da minha mãe.
O jantar de domingo de cada um era independente. Eu comia pão com alguma coisa, meu pai também. Alguém esquentava alguma coisa do almoço. A gente almoçava tão tarde que tinha dia que nem dava fome à noite. Meu pai só ia dormir depois que acabasse aquela sessão de filmes ruins que passa depois do Fantástico. Minha mãe dormia de novo na sala. Eu ficava meio na sala, meio no quarto. Cansava do quarto. Ia pra sala e deitava no tapete, com algumas almofadas. E depois a gente ia dormir de verdade. Dormir de verdade é quando você dorme num dia e acorda no outro. Só os mortos e os jovens não sabem o que é isso.
Esse texto que eu acabei de escrever é tão trivial, mas é a minha verdade. Eu vou batizar de "verdade do domingo".



sexta-feira, 17 de outubro de 2008

a história do menino.

O menino, que vivia no mundo dos corações perecíveis, estava com um baita problema. Esqueceram de gravar em seu coração a data de validade. Todo mundo tinha, menos o menino. Logo, o menino amaria para sempre. Ele tentou falar pra mãe, mas a mãe não levou a sério. " O menino tem essa mania de achar problema em tudo", disse a mãe. Tentou falar pro pai, mas o pai via o jogo na TV, e nunca o menino atrapalhava o pai nesse momento. Uma vez atrapalhou, mas o menino levou tanta chinelada que hoje em dia ele nem respira perto da tv em dia de jogo.
E foi assim que esqueceram de gravar no coração do menino a data de validade: aquele ano era ano de Copa. Aquele dia, era dia de jogo do Brasil. O pai do menino quase teve um ataque dos rins quando teve que largar a tv para levar a mãe do menino para o hospital. O médico tirou o menino de dentro da mãe e voltou correndo pra salinha da tv, junto com o pai do menino. E deu nisso, o menino estava condenado a amar todo dia.
O menino amava tanto e sem parar que um dia o pai e a mãe levaram o menino pro médico (na verdade, levariam o menino antes, mas justo no dia teve jogo das eliminatórias da Copa, dai o pai não levou o menino). O médico examinou aqui, ali... O menino respirava aqui, ali. O médico não sabia o que o menino tinha. "Virose", disse então. Deitaram o menino na cama. Por meses. Mas o menino não sarava da tal doença.
O menino amava o cãozinho, amava os irmãos e até os primos. O pai colocou o menino pra ser juiz de futebol. Mas não deu certo porque o menino era justo demais. Aquilo deixava o pai irritado demais. A mãe levou o menino para ser coroinha. O menino era um anjo. Então não deu certo, a mãe pensou que o menino estava competindo com Anjo Gabriel só pra deixar a avó irritada. Tirou o menino da igreja. "Não há nada que dê jeito no menino", disse a avó. Na escola, o menino não passava de ano. Motivo: amava demais a professora. Não queria mudar de turma. Solução: falaram pro menino que se ele passasse de ano a professora iria junto. O menino passou de ano, a professora não foi junto. Machucaram o menino desse jeito. Na verdade, machucaram o menino muitas vezes. O que mais machucava o menino era saber que ele amava, mas as pessoas que rodeavam o menino amavam com limitações. Assim sendo, não amavam. Ao mesmo tempo que o menino foi condenado a amar, ele foi condenado a sofrer. O menino foi ficando triste, e seguiu triste até que um dia o menino acordou bem. Estava feliz, estava como todos os outros.
Mas de repente, o menino puxou o cabelo da prima, grudou chiclete na calça do pai e xingou a mãe. Surpresos, levaram o menino no médico. "Virose", disse o médico mais uma vez.
O menino percebeu então, com os dias, que ele também estava amando pela metade. Ele estava curado. O menino descobriu então que o seu coração já não era imperecível. O menino ficou triste, afinal amar era uma coisa boa. Mas o menino percebeu também que ele tinha deixado de sofrer tanto.
O menino cresceu e descobriu que para deixar de sofrer, as pessoas abrem mão de amar. Amar de verdade. O prazo de validade brotou no coração do menino no exato momento em que ele se tornou um homem.
O sonho do menino era ser uma árvore com muitas frutas doces. O sonho do homem é ser lenhador. Crescer, às vezes, significa sacrificar. Sacrificar sem necessidade de sacrificar.
Por que? Ora essa, matar é mais fácil do que cultivar.

//Thi

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Good Morning Life


Na verdade hoje é seu aniversário, e eu nem sei o que te dizer. Eu fico feliz por você. Só que fico feliz de verdade. Eu tenho tanta saudade. Mais do que você imagina. Às vezes penso que se eu soubesse o quanto seria difícil ficar longe de você e de todo mundo que eu gosto, eu não teria me mudado. Você não é mais tão criança para fazer certas coisas. E não é tão adolescente pra fazer outras. É disso que eu mais me lembro quando eu tinha a sua idade. E sei o quanto é difícil entender esse mundo tão confuso em que a gente vive. Espero que você também esteja feliz, porque eu quero te ver sempre assim. E se eu pudesse te deixar um presente que durasse para sempre, eu te deixaria a minha paz. Quando você nasceu eu tinha sete anos, e foi muito diferente pra mim porque as coisas mudaram muito rápido. E você é tão importante, que eu quase não lembro das coisas que aconteceram antes de você chegar. Eu me arrependo das vezes em que a gente brigou, das mentiras e de outras coisas ruins que acabaram acontecendo, coisas que eu fiz e que te deixaram triste. Espero que eu tenha alguma coisa pra ensinar pra você. E se é assim, o que eu diria pra você é que cada vez mais eu percebo que eu sempre tive tudo, mas eu nunca percebi. E hoje eu sei que é muito bom ter irmãos, porque eu não me imagino sem você. Amor incondicional existe. Eu sei.

sábado, 4 de outubro de 2008

Da fila do mercado

“ a moça mal vestida me mostrou três coisas:

  1. O mundo é transparente, mas eu sou cego
  2. Se o dia de viver é hoje, o amanhã pode esperar
  3. Em tempos de amor escasso, proteja-se quem puder ”


A inspiração de hoje veio justamente da fila do mercado. Às 10 horas da noite. Sábado. Sai com um amigo, jantei, fiz trabalho (não necessariamente nessa ordem) e lembrei que caso não fosse ao mercado não teria nada em casa para o domingo. Fiz uma compra pequena, porque domingo eu acordo depois do almoço justamente para não precisar prepará-lo.

Na minha frente na fila do caixa havia uma moça vestida loucamente. Assim: mulambenta. Não sei nem soletrar São Paulo Fashion Week já que sou um zero à esquerda quando o assunto é moda. Mas a moça era uma mistura de hippie com cigano com galo de briga com alguém que acabou de acordar.

Quando ela colocou a suas compras na esteira do caixa eu percebi que havia muitos legumes, frango e um pacote de camisinhas. Havia frango e um pacote de camisinhas. Havia um pacote de camisinhas! E ainda por cima estava escrito “Jontex, embalagem econômica”. Eu falei pra mim mesmo “Thiago, faz cara de que não viu a camisinha”. Mas parece que quando você faz cara de que não viu a camisinha você fica com cara de que viu a camisinha.

Enquanto eu flertava a camisinha, a moça mal vestida tirou da bolsa a sua carteira (também mal vestida) e deixou cair duas moedas. Uma ela recolheu. A outra eu peguei e devolvi a ela, que logo disse:

- Obrigada.

E o que esta palavra de oito letras tem a ver com o resto da história? Esta palavra foi pronunciada de uma forma calma e doce que até parecia dublada. Só que mais do que isso, essa palavra me desconsertou. Imagine você que a moça mal vestida me convenceu com uma só palavra que ela era boa, educada e instruída. Coisa que muita gente, com discursos de extensões políticas não consegue fazer.

O pior (ou melhor), querido leitor, é que mostrando ser educada e livre, a moça mal vestida fez com que eu parasse de olhar para ela e começasse a olhar para mim. “Thiago, você que se diz aberto para novas idéias, que coloca o moralismo na lixeira e o orgulho no ralo, que diz sempre pensar duas vezes nos assuntos, compreensível e receptivo à diversidade de cultura e pensamento... e veja só, justo você com esse pensamento bobo e atrasado sobre sexo!”

Pois é, justo eu. Aquilo pra mim era uma cena de filme: eu com cara de camisinha envergonhada, a moça mal vestida, o frango, os legumes, a própria camisinha e uma trilha sonora dos anos 70. Isso! Tocava uma música muito boa e de repente eu voltava pouco a pouco a ser eu mesmo. Sim, eu sou aquele velho condenado com as novas idéias de liberdade.

E pensei também em como o mundo seria melhor se todos fossem iguais à moça mal vestida. Porque a moça mal vestida compra camisinha e não se importa se uma cambada de tontos fica olhando. A moça mal vestida tem sempre os pés no chão, mas sabe que pode voar. A moça mal vestida é coisa rara e preciosa, diferente da leva de vadias que escondem a falta de pensamento com roupas da moda e jóias caríssimas.

Por que eu escrevi esse texto? Primeiro, é um pedido de desculpas à moça mal vestida pelo meu modo cego de ver as coisas. Segundo, para dizer que a moça mal vestida é uma mulher linda e inteligente, um exemplo a ser seguido, Terceiro, pra dizer que pra mudar basta estar vivo. Eu estou falando de mudança de opinião, de postura, de pensamento e atitude. Ao viver essa situação, penso que eu mudei. Você pode fazer o mesmo às vezes?

E pra finalizar, eu escrevo esse texto pedindo para que você se proteja. Em todos os sentidos.

Proteja-se.

Liberte-se.

Para verdadeiras descobertas, não peça novas paisagens, peça novos olhos.

Então, pra nós, um hoje mais feliz.

Mil beijos.

E com alguns quilos de moralismo a menos, sigo vivendo.

domingo, 7 de setembro de 2008

Aquilo que precisa ser compartilhado




O trecho do livro a seguir (Uma vida inventada: memórias trocadas e outras histórias, Maitê Proença, Agir Editora) é simplesmente brilhante. Num relato simples, tabus, preconceitos, caretices, humor e surpresa se misturam perfeitamente. Então, lá vai:

Outro dia uma amiga levou a avó (dela) ao ginecologista porque estava com uma irritação na vagina. O médico examinou a velhinha e sentaram-se para o diagnóstico:

Médico: A senhora se masturba?
Avó: Claro.
Médico: A senhora se masturba mais de uma vez ao dia?
Avó: Claro.
Médico: Quantas vezes?
Avó: Ora, doutor... Eu caminho com dificuldade, enxergo mal, já não posso ler, vejo pouco da Tv... só me resta isso. Me masturbo muito, umas três vezes pelo menos. Com um consolo.

Minha amiga, que havia chegado com uma avó doente, saiu da consulta com uma velhinha tarada, uma receita de cremes vaginais lubrificantes e uma cara de tonta.




A gente vive num país em que todo mundo se orgulha de comer todo mundo no carnaval, nos dias santos, nos fins de semana, na segunda, na terça... Mas também vivemos num país em que todo mundo tem vergonha de falar sobre sexo em casa, tanto por parte de pais como por parte de filhos, país em que as escolas ainda usam conceitos e linguagem tradicionais para este assunto tão popular. O Brasil não é o país do sexo. Afinal, sexo é diversão séria. Estou no país da sacanagem.
Sete de setembro. A liberdade de pensamento, cadê? A liberdade de escolha, cadê? A liberdade de ser o que cada um realmente é, cadê?
A Clarice me disse uma vez: A liberdade é um segredo. Eu acho que ela foi certeira. Clarice acabou comigo. Eu que pensava que a liberdade fosse gritada, escancarada... Clarice, por que você insiste em mostrar que eu sempre estou errado? Eu te amo Clarice. Casa comigo? Mas não hoje. Hoje é feriado. E eu sou brasileiro.

terça-feira, 27 de maio de 2008

sentimento em letra de forma

Vou escrever sobre uma coisa bem simples e, até mesmo, boba.
Acho que a necessidade de precaver o leitor sobre o que será escrito evita as decepções, tanta as minhas quanto as dele.
Eu vou falar de uma coisa que acontece dentro de casa. Que acontece dentro da nossa casa e, por ser assim, só a gente sabe. Eu quero falar de um coração que tem que se dividir, mas que pra isso, quebra. Eu quero deixar claro que há dois mundo, o de dentro e o de fora de casa. Eu quero dizer que eu não sei o que fazer, mas também afirmo, de coração aberto, que não fiz o certo nem o errado. Eu fiz o que achava que fosse melhor. Não o melhor pra mim, nem para você, leitor. Foi feito o que eu achava melhor pra minha família. Você deve estar pensando que eu quero criar coragem para falar sobre uma doença ou morte que nos surpreendeu ou então de uma outra crise de qualquer espécie. Não é isso leitor, eu quero falar é de saudade. Mais do que isso, eu quero falar é do adiamento da saudade. É do “não ir embora” que eu quero te dizer. Eu quero que você fique na sala leitor, com sua avó vendo novela. Quero que você fique no quarto, com sua mãe passando roupa. Que você fique no escuro, com o seu pai trocando a lâmpada. Eu quero que você, leitor, não fique sozinho. Eu quero que seu coração não fique sozinho. Quando eu era criança havia um liquidificador e duas coisas para serem batidas: uma massa de bolo e um creme de babosa para cabelo. Para a minha felicidade de criança, bateram primeiro a massa de bolo. E eu que até esses dias acreditava em minha vó dizendo que bateria primeiro o bolo porque a babosa sujaria o liquidificador se fosse batida primeiro e poderia estragar a massa. Era tudo mentira. Ela sabia que a felicidade não seria para sempre, mas nem por isso ela deveria terminar o mais cedo possível. Então ela mentiu para mim. Graças a Deus, era mentira. O bolo acabou, o liquidificador também. Só a lembrança é que fica.

//texto pessoal

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Na vida, só resta seguir.

E o que conforta o meu coração é saber que por muitas vezes apontaram para minha face e julgaram-me incorreto. Profano.

Juro por Deus que a oportunidade de conhecer a dor e a frustração pela falta de palavras para descreve-la fizeram-me infeliz, não só por um tempo. Coisas que o tempo não pode apagar, coisas que o vento não pode levar para longe. As lágrimas secam. Só as lágrimas.

E é ao mesmo Deus que agradeço por ser dono desta face, condenada ao invés de ter nas mãos os dedos que me acusaram.
Mãos sujas pelo ódio, pela incompreensão. Mãos que machucam.
E as feridas do meu coração... não têm cura.

Mas para aqueles que me feriram, resta maior penitência.
Porque, não há remédio para quem não está doente, nem respostas a quem não faz perguntas.
E também não há perdão para quem fere o próximo sem motivo, sem explicação.

//texto pessoal.

sábado, 22 de setembro de 2007

Eu vou seguir...

Porque o que eu sinto é maior do que eu sou.
Porque os inimigos estão perto, mas os amigos estão no coração.
E eu estou aprendendo a viver distante das pessoas que eu gosto
para poder valorizar ainda mais os poucos momentos que no futuro passaremos juntos.
Momentos em que toda essa saudade irá se transformar em um imenso abraço, em um terno capítulo da minha vida.
Então um dia haverá um livro, sobre tudo isso, sobre nós. E saiba que eu não me importo se haverá ou não um protagonista na história da minha vida. O que é verdadeiramente importante pra mim é que você esteja presente em todas as páginas e que eu encontre em mim todas as coisas boas que sempre apreciei em você.

Mil beijos!

** dedicado aos amigos **

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Abstrato / Concreto

Pensando muito em meus pais agora.
E em mim também.
Mesmo fazendo um curso de graduação diferente,
mesmo distante, mesmo sem planos, estou percebendo
o quanto eu estou ficando parecido com eles.
E eu não sabia que esta seria a melhor coisa
que me aconteceria
durante este tempo longe de casa.
Por mais que eu mude os rumos da minha vida,
o meu coração já tem um caminho a seguir.
Eu estava iludindo a mim mesmo quando decidi
ser diferente dos meus pais. Ter outros ares, outros olhares.
Como eu fui tolo.
Preferi seguir um caminho novo e incerto em vez de seguir
um caminho seguro e já conhecido.
Caminhos que levariam ao mesmo destino.
Caminho que tem como ponto final, o ponto da partida.
Irei andar muito, mas ainda assim vou regressar
ao meu lar.
Mas descobri que é fundamental
percorrer este caminho, pois ele fez com que eu mudasse bastante
e fez com que merecesse o amor dos meus pais.

Aprendi a diferença entre obrigação e gratidão.

Hoje eu sou muito agradecido a tudo que me foi oferecido e irei tentar ao máximo
retribuir todo o carinho e conforto recebidos que, de certa forma, eu não merecia.

Mil beijos.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

mais um blog...

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sem idéias no momento,
apenas pensando neste meu maldito hábito noturno,
mania estranha de sentir-se bem em plena madrugada.
alguém acordado?...

é impressionante como a madrugada parece eterna...
tão calma, tão sublime.
a impressão de estarmos completamente sós me fascina.
sinto-me dono de todas as coisas,
até de coisas que eu nem tenho...

um brinde a minha insônia e a estas horas improdutivas.
Cuidado com o MST.
daqui a pouco vão invadir a minha mente...
vazia e inóspita.