terça-feira, 7 de abril de 2009

Sombras na Parede - Capítulo 1

- Jacinta e Miriam -

Parada entre duas prateleiras de livros, interrompia a passagem dos outros alunos. A bibliotecária se aproximou e viu que a aluna não passava bem.
- O que você tem?
- Não sei... estou meio enjoada e...
A aluna foi repentinamente interrompida:
- Você está grávida. Idiota.
A bibliotecária não era amável durante as manhãs de segunda.

(...)

- Miriam e Vanessa -

- Eu adoro essa blusa, preciso ver se combina com a saia.

Disse isso e foi logo se despindo. Gostava de fazer isso na frente de Vanessa, que não era magra. Mostrava o corpo e ficava atenta aos olhares discretos da amiga. Mas que naquele dia não estavam tão discretos. Na verdade, estava ficando desconfortável. Resolveu perguntar:

- O que houve? Parece até que viu uma estria em mim!
- É que seu corpo... você está bem? Parece um pouco inchada. Por isso você disse que iria procurar um médico ontem à tarde?
- Bom Van... não iria falar para ninguém, mas estou preocupada. Eu abortei. Achava que ficaria bem, mas sinto algumas dores. O médico que fez o procedimento disse que isso aconteceria mesmo, mas não pensava que seria tão forte. Sei que posso confiar em você, mas aposto que você também não sabe o que me dizer...

Vanessa ficou pensativa e vazia ao mesmo tempo. Descartava pensamentos. Pensou no aborto, no liquidificador, na relação sexual da amiga, no que ela sentira ao ser penetrada, em todas as suas curiosidades. Perguntaria sobre isso depois.

- Você fez a coisa certa.
- O quê? Van, você não pensa isso. Nem eu mesmo sei o que fiz.
- Falando sério. Você não tinha escolha.
- Será? Você faria a mesma coisa?
- Se eu fosse tão estúpida quanto você e aquele seu namorado imbecil, eu faria. Eu nem sei porque essa porra de aborto é proibida. Imagina se você tivesse esse filho. Você não consegue cuidar nem de um peixe de aquário. O aborto é a melhor escolha pra garotas sem responsabilidades e medíocres. Eu apóio totalmente. Você não está preparada para ser gente, não pode dar atenção a outro ser humano. E não sabe fazer escolhas. Vide seu namorado. Ele não te ajudaria em nada, até complicaria ainda mais as coisas. E outra, você usaria essa gravidez como desculpa para não cumprir os seus deveres. Você sempre faz isso. Inventa doenças, falsifica atestados, suborna pessoas. Definitivamente, eu não queria ter você como mãe. Parabéns amiga, você fez a coisa certa. Você finalmente assumiu quem você é.

Sentia o peito apertar, afinal Miriam era sua amiga. Tinha inúmeros defeitos, mas sabia ser companheira nos momentos certos. No entanto, não podia concordar com estas irresponsabilidades, que já estavam sendo constantes. O silêncio havia sido quebrado. Estava pensando em ir embora, mas as palavras de Miriam foram precoces:

- Van, me deixa sozinha.

Na verdade, ela tentaria conversar mais com Vanessa, não fosse pelo mal-estar que retornara violentamente e pelo sangue fervente que sentira escorrer inundando a saia nova. Antes de sair, Vanessa olhou para os olhos da amiga. Ficaria tudo bem. Era rotina. Sentiu o cheiro de sangue doente e pensou em perguntar de onde ele vinha. Não perguntou porque já sabia a resposta. Imaginou Miriam dizendo "É do coração, amiga".

4 comentários:

SUSANA disse...

Uau! Que estreia!!!

o MeninO do lado__ disse...

=O

Caracas! isso daria uma cena louca de um filme hein!!

Já vi tudo =)

Fernanda disse...

oi vim só me despedir,to excluindo meu blog...continue escrevendo..vc tem talento e sucesso!!!

Magnólia Ramos disse...

Caramba!

A frase final sobre o cheiro de sangue foi perfeita!