quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Paz, sucesso, sorte, felicidade...

Susana é leitora.
É escritora
É minha amiga.
É correta
e
é
extremamente louca.



Feliz Aniversário!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Adapte-se ou morra!

O primeiro ( e talvez o último) vídeo da mais nova sessão do blog.

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Porque eu o admiro

Hoje em dia, o que te motiva a escrever poemas?

Ferreira Gullar – No fundo, a motivação não é constante. Tanto que escrevo muito pouco. Escrevo muito pouco. A minha poesia, costumo dizer, ela nasce no espanto. Precisa de alguma coisa que me surpreenda – que eu não tenha descoberto ainda na vida, com minha experiência de vida. Entendeu? Nasce, assim, de uma coisa que não controlo. Não posso dizer: “vou escrever dez poemas esse mês”. “Vou escrever um poema amanhã”. Não posso. Está inteiramente fora do meu controle. Tanto que posso passar um ano sem escrever nada... Eu estava oito meses sem escrever, fui fazer uma viagem para Nova York, no hotel... Cheguei lá, de repente, e aconteceu que escrevi cinco poemas numa tarde. É uma coisa nasce de descobertas da vida.

Você avalia a política nacional com otimismo?

Gullar – O Brasil corre um risco grave. O Lula, que é um sindicalista, junto com os companheiros de sindicato, está ocupando setores importantes da sociedade – fundos de pensão, as grandes empresas estatais. Eles pretendem ficar no governo para sempre, fazendo uma política de caráter sindicalista, oportunista e demagógico. Isso é um perigo, as pessoas têm que pensar nisso. Porque temos que construir um país democrático. A alternância no poder é saudável para a democracia. Não basta voto. O Bolsa Família, que antigamente atingia 4 milhões de pessoas, hoje atende a 50 milhões de pessoas. Isso é comprar voto! Não tem como controlar 50 milhões de pessoas. É neto de prefeito, filho de embaixador, todo mundo recebendo o Bolsa Família. Não tem controle. É uma coisa demagógica, feita para fazer discurso. Artifícios não resolvem problemas, tem que dar trabalhos para as pessoas, e não esmolas. A ajuda tem de ser provisória – o trabalho é que dá dignidade à pessoa. A ameaça é o Brasil virar a Venezuela. As pessoas têm que ter lucidez para colocar estadistas no governo. Quem não lê não conhece o país. Ninguém pode conhecer o país sem ler. É grave.




“Sobre a cômoda em Buenos Aires/ o espelho reflete o vidro de colônia Avant la Fête/ (antes,/ muito antes da festa!)// Reflete o vidro de Suprady, um tubo/ de esparadrapo,/ a parede em frente, uma parte do teto.// Não me reflete a mim / deitado fora de ângulo como um objeto que respira. // Os barulhos da rua / não penetram este universo de coisas silenciosas./ Nos quartos vazios / na sala vazia na cozinha / vazia / os objetos (que não se amam): / uns de costas para os outros.”

sábado, 5 de dezembro de 2009

A Saga dos 7 Anos / Parte 3: Dos reis que me ensinaram a viver

Quando eu tinha sete anos, minha tia me contou uma história muito intrigante. Era diferente das histórias que eu estava acostumado a ouvir porque não tinha exatamente um final feliz. Nem triste.
Hoje me veio esta lembrança com bastante intensidade. Então, a história contada foi mais ou menos assim:

Essa é a história de um rei chamado Midas, que por haver desejado possuir muito mais do que tinha, correu o risco de morrer de fome, e, por ter desejado criticar, sem ter uma precisa competência do que criticava, recebeu como presente um par de orelhas de burro. Este notável episódio aconteceu quando, ao criticar erroneamente Apolo em uma disputa musical, o rei recebeu um castigo. Já que Midas demonstrara ser um burro, exprimindo um insensato parecer, fez-lhe crescer orelhas como as de um asno.
Imaginem só a dolorosa surpresa de Midas, sua vergonha, e seu temor, ao pensar no quanto seus súditos iriam rir por terem um soberano dotado de semelhantes pavilhões auriculares. Procurou, então, ocultar a vingança de Apolo, pondo na cabeça um alto gorro, que lhe ocultava as orelhas. Chegou, porém, o dia em que teve que recorrer a um servo, para que lhe cortasse os cabelos, que se haviam tornado longuíssimos. Escolheu aquele que lhe pareceu mais obediente e fiel, e recomendou-lhe que mantivesse no mais absoluto silêncio sua infelicidade.
O servo-cabeleireiro não violou o juramento prestado, nem revelou jamais o segredo a nenhuma alma viva, mas não conseguiu guardá-lo para si. Tinha jurado não o revelar a nenhum ser vivo, portanto, não passara por perjúrio se o confiasse à terra. Cavou um buraco no chão e nele murmurou o que Midas não queria que soubesse, e sentiu-se aliviado de um peso enorme, como todos os faladores que não ficam satisfeitos enquanto não externam o que devem calar.
Mas, um dia, justamente sobre o buraco, já entupido, nasceu um caniço, cujas raízes desceram até tocar no buraco, e absorveram deste as palavras do servo. E os caniços repetiam, farfalhando, ao vento, por uma infinidade de vezes, de modo que muita gente o ouviu, o segredo das orelhas de Midas, que, assim, se tornou o divertimento de todos os bisbilhoteiros que viviam na Frigia*.

E me lembro perfeitamente de não ter entendido muito bem esta fábula.
Por que a confissão seria um castigo e, ao mesmo tempo, um alívio? Por que temos sempre que escolher entre um segredo ou a paz interior? Por que o sentimento de angústia não cabe dentro da gente? Será que as pessoas que também escondiam as suas orelhas de burro riram ao ouvir o infortúnio do rei? Por que nos importamos tanto em descobrir o que há por trás de cada pessoa? Para sustentar o nosso divertimento?
Minha tia não deveria ter me contado esta história, sabe? Por que história é de gente grande.


*Adaptado daqui!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Premeditado

Porque o meu coração dá sinais de que a felicidade está por perto.
Revele-se.

sábado, 28 de novembro de 2009

Café Filosófico

Com o tema 'O que podem os afetos', Viviane Mosé fala sobre a finitude da vida. Eu achei divertido e bastante inteligente.

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Aniversário

Hoje é o meu aniversário. E quando tento escrever sobre mim, eu acabo perdendo o foco e descrevendo outras pessoas. Talvez porque eu nunca me sinto sozinho, de fato. Mas dai vem o nome do blog, que invoca solidão, e parece que sou contraditório. Talvez eu seja.

Ano passado eu aproveitei esta mesma oportunidade para falar dos meus pais e neste ano eu irei falar sobre o blog, que tem sido uma ótima companhia.
Eu sou blogueiro desde os meus 14 anos. Entendia muito pouco de layout e Html, sabia muito menos de mim. Hoje tudo permanece igual. Naquele tempo, a ideia era mesmo a de ter um espaço na rede, de divulgar coisas legais, mas eu não tinha tanto o compromisso de ser original e de expor os meus próprios textos. De lá pra cá as coisas mudaram. O Solidão Estável foi a ideia de uma noite, que persiste até hoje, para que eu pudesse mostrar para mim mesmo como eu sou como escritor. Mas a palavra escritor é um pouco forte para mim. Talvez eu seja mesmo um tradutor. Gosto de contar histórias que presenciei, de tornar grandes aqueles momentos que passam despercebidos por muitos, de registrar os meus sentimentos. De tanto admirar pessoas que escrevem, eu passei a tentar também. Foi uma forma de parecer interessante para alguém. Quem? Enfim.
Adoro reler os arquivos do blog. Tem coisas que eu releio e penso 'Nossa, jura que eu escrevi isso?', no sentido de achar muito romântico, ou muito dramático, ou qualquer outro exagero comum. E isto é o mais interessante de tudo. Eu vejo que estou registrando o meu amadurecimento, vejo as ilusões descartadas e adquiridas.
E agora talvez possa parecer loucura, mas é o que é. Eu não gostava de ser quem eu sou. Eu me amava pouco. Eu via tudo em preto e branco. As postagens do início mostram isso.
Mas de uns tempos pra cá, conforme eu fui vivendo, escrevendo, sorrindo, chorando e como boa parte disso ficou no blog, acho que eu pude me perceber melhor e ver que eu não merecia sofrer. Pude notar que eu era especial. Especial para mim. E também vejo que sou especial para vocês, de certa forma. Porque me sinto assim.
Sabe, por muitas vezes sentei exatamente onde estou agora para escrever algo que estava me entristecendo e, de tanto pensar, vi que não valia a pena se lamentar por bobagens. O que era pra ser um texto triste, virou algo bem feliz. Não vou dizer que o contrário nunca aconteceu, mas garanto que foi com uma frequência bem menor.
Então o blog tem funcionado assim: remendando a minha vida, às vezes consertando, outras vezes ofuscando.
Mas o mais louco de tudo isso é que, se eu fosse um registro inanimado, por Deus, eu seria este blog. E se eu sou ele, todo carinho deve ser depositado. Porque nós merecemos.
Então, se eu pudesse deixar uma mensagem para mim mesmo e para os dispostos a me ouvir, eu diria apenas para que a gente lesse mais, escrevesse mais, ouvisse mais e só então, quem sabe, falar alguma coisa. Porque, infelizmente, ouvido não tem pálpebra.
Então, de aniversário, o que eu desejo mesmo é



SORTE

porque do resto eu me encarrego.

Um beijo!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

no hero in her skies

É sobre algo bem simples e até mesmo bobo. Mas tem me invadido há algum tempo e tem me comovido durante alguns minutos.
Mais ou menos em 2005, eu estava no consultório de uma dentista junto com a minha mãe, esperando para ser atendido. Em um certo momento, uma senhora, que vendia pães, entrou na sala de espera e ofereceu o seu produto. Não tínhamos a pretensão de comprá-los, talvez nem tivéssemos dinheiro para aquilo no momento. Mas a senhora começou a insistir muito e começou a contar uma história mais ou menos assim: um rapaz queria muito comprar os pães, mas não tinha dinheiro suficiente, então ela acabou vendendo por um preço menor. E terminou dizendo que a gente pode sempre ajudar, mas é impedido pela má vontade. Não dei muita atenção a ela, porque eu sou assim mesmo: distraído por opção. Apenas pensei que ela estava sendo invasiva. Mas enquanto eu pensava, minha mãe, de braços cruzados, sem encarar a mulher, apenas respondeu naturalmente: Mas não é bem assim. Às vezes a gente não pode mesmo. A melhor parte foi quando a vendedora foi embora.
E eu tenho pensado muito nisso ultimamente, assim como no dia em que tudo aconteceu. No fato da minha mãe não ter se rendido a uma história que nem Deus sabe se é verdade, de ter dito o que veio à cabeça, de ter traduzido o meu pensamento, de interpretar tão bem as coisas. De ser honesta com princípios.
Talvez eu tenha ficado em silêncio porque fiquei com dó da vendedora. Mas não acho que a vendedora tenha pensado em nós no momento em que expôs a nossa suposta má vontade de ajudá-la.
De tudo, eu só posso ter comigo uma coisa: a gente tem que dizer 'não' na hora certa. Antes de riscar um fósforo para acender um cigarro. Antes de carregar uma arma para atirar. Antes de amolar uma faca para desconfigurar. Antes de contrariar tudo aquilo em que se acredita.
E que às vezes a gente tem que ser racional. Estranho, porque me emociono ao escrever esse 'conselho'. É que a gente tem que ceder. Tem que identificar aquilo que a gente não precisa. Tem que cruzar os braços pra demagogia. Tem que se libertar das mentiras piedosas. E que às vezes, como disse a minha mãe, a gente não pode mesmo.

domingo, 15 de novembro de 2009

Engenho

Escrevi esta frase porque agorinha há pouco me bateu uma saudade louca de tudo.
Talvez vire um texto, mas no fundo é um pretexto
pra ver passar
o tempo
que eu jurava que não tinha.
O tempo sempre é livre.
Mas também te faz escravo.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Sobre naturalmente ser

Para as boas garotas, flores e livros. Para os garotos, videogames e amigos. Ou o contrário. Seu gênero não é uma sentença.
Para os caretas, solo firme. Para os demais, queda livre, cabelo ao vento, bagunça. Para os mal comportados, tocar a campainha e correr. Para os mal humorados, fingir que não está e não atender.
A liberdade que brota na mente é o passe para não saber lidar com aquilo que se sente. Porque eu sou livre. Porque eu tento te esquecer e consigo. Porque durmo bem sem dividir a cama contigo. E de tanto tentar esquecer, já não sei mais o que digo e me lembro de que já deixei de existir nos seus pensamentos e diálogos.
Fico sem abrigo e sem sono. Durmo pouco e acordo te odiando pela vida toda. Mas só até amanhã. Porque eu sou um bom garoto latino-americano. Porque eu aceito o inevitável. Porque eu estou pronto.
Eu esperei muito por este dia e ele chegou. Tímido e leve, mas veio. É o dia em que olho para mim e percebo que não há nada mais para perder. Porque eu me desprendi daquilo que supostamente era meu. Daquilo que apenas existia para ser roubado.
Eu me amo primeiro. Eu me amo por ser verdadeiro. Penso em tudo o que fiz ontem, anteontem, mês passado e de que forma isto me conforta hoje. Fiz por mim mesmo. Para mim mesmo. Sobretudo por amor. Amor à vida. Eu existo e não posso escapar da realidade. Eu sou o suposto desejo de alguém. Mas posso também ser o pai, o vilão, o amigo, o desconhecido. Eu sou tudo. Absolutamente.

Sou tudo o que eu quero ser,
mas no fundo quase sempre é sem querer.

sábado, 7 de novembro de 2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Clube do Guarda-Chuva Quebrado

Esse texto acompanha um capítulo da Novela do Manoel Carlos e suas paranóias sexuais. Não que eu as tenha ou que o texto fale sobre. É só para dizer que a televisão está me fazendo companhia, que o controle remoto não está funcionando e que não vale a pena me levantar daqui para mudar de canal. As pessoas (isso me inclui, é claro, porque a gente gosta de falar que "as pessoas" fazem isso e aquilo como se não fosse uma delas) gostam da TV como companhia pela simples inércia que ela nos oferece. Se você discorda de alguma coisa que assiste e reclama no sofá, a TV não se altera e não parte pra cima querendo ver todos os seus dentes no chão. Se você coloca o dedo no nariz enquanto assiste um programa qualquer, você não é censurado... enfim, há outras vantagens que não valem a pena discutir.
Hoje foi um dia relativamente difícil. Carregou todo o peso de uma semana que está demorando para passar.
Na segunda, o tempo estava fechado e eu precisava me precaver. Levaria um guarda-chuva comigo. Fiquei muito tempo sem um e agora eu tenho dois. Um maior e mais resistente e um outro que se dobra inteiro, super fraco e compacto. Como ainda não estava chovendo eu pensei "Não posso levar o guarda-chuva maior. Vou ficar parecendo o Jeca Tatu com ele". Esse pensamento foi suficiente para levar o frágil pseudoguarda-chuva na bolsa.
Como já previa, começou a chover. Mas não imaginava que começaria tão rápido. Mal fechei o portão e começou a chuviscar. Esperei um tempo, me fiz de valente, mas a chuva foi engrossando e eu fiquei sem saída. Abri o guarda-chuva e adivinhem: estava quebrado. Era só uma haste, mas me incomodava muito. Chovia em mim, porque ele era muito pequeno. Tudo isso pra não ficar parecendo o Mazzaropi. E de que adiantou? O Jeca era quem sabia das coisas.
Mas pra minha surpresa, comecei a reparar no guarda-chuva dos outros e vi que não estava sozinho. De cada três guarda-chuvas que eu via, dois estavam quebrados. Gostei disso. Tive a sensação de que os guarda-chuvas quebram para abrandar a solidão.
Se a semana começou com chuva, hoje o sol trincou minha nuca e o cansaço tomou conta de mim. Prova, trabalho, aulas... e a busca por um presente.
No final desta tarde fui ao shopping comprar um presente para um amigo e, graças ao horário de verão, fui incendiado pelo sol das cinco e meia. Mas não foi só isso. Esqueci que era sexta, dia das pessoas bonitas irem ao shopping, de banho tomado e tudo. Cheguei lá e percebi que eu estava muito, muito, mas muito mal arrumado. Não que estivesse tão mal vestido assim. Mas o cansaço, o peso do corpo e aquele suor na testa me davam a impressão de que eu estava poluindo visualmente aquele cenário de meninas e meninos bem produzidos. Fiquei meio envergonhado, confesso, mas passou muito rápido. Foi só o tempo do lado racional falar mais alto que o emocional. Olhei para aquele povo e pensei que a vida deve ser muito boa mesmo pra quem não tem o que fazer. É, é isso mesmo! Cambada de vagabundinhos bem vestidos! E cheirosos.
Passado o mal estar inicial, começou um outro. Eu não sabia o que comprar. Pensei em uma loja de presentinhos que havia lá e fui procurá-la. O shopping é bem pequeno na verdade, mas depois de umas três voltas, eu percebi que eu estava perdido. Naquele momento, me esqueci da loja que procurava. Qualquer outra serviria. Entraria na primeira loja em que eu visse algo que poderia ser dado como um presente. Mas naquela confusão de gente arrumada e devido ao conflito com minha mente perdida, eu só via lojas de colchões e vendedores de sorvete.
Subi pela escada rolante e, sem sucesso no segundo piso, decidi retornar ao primeiro. Mas adivinhem: eu não encontrava a escada para descer. Meu Deus, por um minuto eu pensei que eu estivesse numa série americana em que as lojas desaparecem e que as escadas só sobem. Ou eu pulava por alguma janela e quebrava todos os ossos do corpo ou andava mais um pouco para ver no que dava. Muito em dúvida, decidi andar mais um pouco.
Encontrei a escada, que estava bem perto de mim. E pra piorar, havia duas escadas para descer. Ou seja, eu sempre estive por perto de pelo menos uma delas. Conclusão: pra que engenharia perfeita se o Thiago aqui é uma anta? O processo de perda dentro shopping me levou a um grande, polêmico e já conhecido conflito: quem sou, para onde vou? Mas é claro que a resposta que eu queria estava limitada ao espaço das lojas. Lembrei que existia uma loja de perfumes perto da primeira escada rolante e logo percebi que eu tinha estabelecido uma péssima referência para me localizar. Andei, andei e andei e depois de muitos círculos, encontrei a loja. Seria ali mesmo que escolheria um presente e pronto. Minhas ideias morreram e eu só queria acabar com tudo aquilo. Entrei na loja e a atendente era uma simpatia. Expliquei o que procurava e ela me mostrou coisas bem legais. Espirrou alguns perfumes em mim, o que foi um alívio, porque agora eu poderia me camuflar melhor entre os bonitinhos do shopping. Enquanto isso, ia me mostrando as novidades. Mal sabia ela que tudo ali era novidade pra mim:

- Você conhece esse, não é Thiago?
- Não...
Mas eu já havia dito que não conhecia nenhum dos outros três produtos que ela me mostrou anteriormente. Prolonguei a frase:
- Não acredito! Adoro esse. Decidi, vai esse mesmo!
- A gente tem uma promoção!

Meus ouvidos vibraram com essa palavra mágica. Então vai moça, me explica a promoção. Ela me explicou. Sabe, a promoção não era bem o que eu queria. Mas era promoção. Comprei mais coisas. Não resisti. Hora de pagar.

Cadê o meu cartão? Na outra carteira, que está em casa.
Por que um ser tem duas carteiras? Porque ele é burro.

Mas dei um jeito. Havia um outro cartão, que uso muito pouco e que a fatura é mandada diretamente pro meu pai. Mal havia concluído uma missão e já estava em outra: explicar que fui vítima de um golpe que a moça simpática intitulou de "promoção", por isso o valor da fatura subiu um "pouquinho".

Achei o cartão e entreguei pra moça do caixa, que me ofereceu outro cartão, mas dessa vez era um tal de cartão fidelidade. Já percebeu que os cartões tem nomes simpáticos? Fidelidade, pra mostrar que você é uma pessoa leal. Crédito, pra dizer que você passa confiança. Visita, pra você ir tomar um cafezinho e usar todos os seus outros cartões em todas as grandes promoções.

Enfim, estava cansado demais pra saber sobre o cartão. Era algo mais ou menos assim: na compra de muitos reais em compras, você leva de graça o 12087845º que você comprar na loja.

- Moça, custa alguma coisa esse tal cartão?
- Não, só tem que preencher um formulário. É rapidinho.
- Tá bom então.

Fiz uma cara de quem iria fazer o cartão só por fazer, mas eu estava morrendo de vontade por dentro. Confesso: adoro cartão. E preencho rápido formulários, porque decorei meu CPF e meu CEP!

Preenchi, peguei o pacote, sai da loja e agora era só ir pra casa. Achei uma das saídas relativamente rápido. Não era exatamente a mais perto da minha casa, mas era uma saída. E me senti bem melhor do lado de fora. Pessoas cansadas voltando do trabalho, trânsito feroz, fumaça, transpiração. As pessoas arrumadas estavam confinadas no shopping. O mundo era nosso. E me senti exatamente igual a todo mundo. E olha que eu estava sem o guarda-chuva quebrado. Deve ser porque no fundo a gente se identifica pelo cheiro.

Um beijo, ótimo feriado.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Porque no fundo...

eu sou meio Rubinho.
Meio vacilão,
meio azarado,
meio azarão.
Mas na hora da corrida
o povo bota fé.
É ou não é?
É!
Viva a Síndrome do Mané =)

sábado, 17 de outubro de 2009

Homens de Júpiter

Na insistência de um segundo
você diz que não me quer.
Que não satisfaço seu gostos,
que não te mereço, mulher.
Se quer mesmo ir embora
que acelere o passo.
Com sua voz dispersa no quarto
você diminui meu espaço.
Peço apenas para que fale baixo
que deixe suas queixas à parte
Um beijo pra você
mas eu não sou de Marte.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Quando uma verdade mal pode esperar

Um medo de me decepcionar. De não conseguir. Estou aprendendo a me amar loucamente e isso envolve uma crise muito grande porque parece que o medo de me machucar está aumentando mais. Eu quero ser dono de toda a minha história, mas parece que me ausento em algumas páginas. Tento ser tudo. E isso parece tão pouco às vezes. Se pudesse ver cada quadro do futuro para me tranqüilizar ou ao menos me conformar. Mas não. Tenho visões distorcidas e descontínuas. Se me preocupasse menos e se bebesse mais. Se jogasse mais. Se dependesse menos de hipóteses. Tudo isso por quê?

Maldita estrela cadente que passa rápido
demais pelo meu céu e não vejo.
Não me permite o desejo.
Se fosse um violão e não uma harpa.
Se fosse de gêmeos e não sagitário.
Se fosse mais carnal e menos imaginário.
Se fosse uma música e não um texto.
Se existisse um mínimo pretexto.
Se fosse verão e não primavera.
Se fossem problemas de outra era
Se fosse foxtrot e não valsa
Se a minha voz não ecoasse falsa
Mas se não existisse esperança
Nos meus sonhos de criança
Se não houvesse o abrigo
Que você divide comigo
Eu já teria desistido
Não fosse pelos amigos?

sábado, 10 de outubro de 2009

Open your window

Se eu pudesse traduzir um sentimento sem me perder por inteiro e conseguisse deixá-lo intacto em um registro inanimado, eu gravaria em pedra, papel ou tela digital o meu amor contido nos poros do corpo vivo que é a nossa relação.
Se eu pudesse transcrever o abismo que há entre o que foi dito e a verdade absoluta você saberia que eu, mesmo com falhas, sempre, sempre e sempre quis ser o melhor para nós.
Se eu pudesse voltar no tempo, eu mudaria muita coisa. Porque eu me arrependo.
Se eu pudesse te impedir de errar da maneira que eu errei, eu impediria.
Se eu pudesse te distanciar dos perigos inevitáveis, eu distanciaria.
Se eu tivesse todas as respostas certas, eu sopraria.
Se soubesse como conjugar a vida, eu lhe ensinaria o pretérito imperfeito, para que não fosse torturado e soubesse lidar com ele.
Se eu pudesse estar com você, eu estaria.
Se eu pudesse não me emocionar ao te escrever, isso não teria mais fim.

Feliz aniversário,
irmão.


"E você é tão importante, que eu quase não lembro das coisas que aconteceram antes de você chegar"

sábado, 3 de outubro de 2009

As histórias que a gente traz no peito

O conhecimento popular, a crença, o trabalho.
Sabedoria.
Se puder deixar um presente a alguém, deixe uma história.
As pessoas do meu país me emocionam. Inteligentes, divertidas e acima de tudo corajosas.
A gente merece tanta coisa. A gente luta tanto.
Parece ficar preso no coração tudo o que eu queria falar. Ainda mais depois de ter assistido o documentário 'O Fim e o Princípio'. Por não saber o que dizer, deixo que eles falem por mim:

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Sobre um dos moradores do vilarejo, que faleceu após o lançamento do filme:

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E ainda há muitas outras histórias. Um exercício para todos os nossos sentimento. Brava gente brasileira.

Boa semana ;)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Rave

Num dia de muito agito, para minha surpresa, encontrei Kari na balada.

Cumprimentos na rave


Dançando muito na rave:


Exausto na rave:


Caindo fora da rave:


Marcando um outro dia pra rave:

Beijos, me liga ;*

domingo, 20 de setembro de 2009

Análise, Simulação e Controle

É gostoso escrever com música. Parece que durante a noite ela fica ainda mais alta. Não precisa dividir espaço com o som dos automóveis e dos móveis imóveis sobre o assoalho exausto do meu quarto empoeirado.

"No corcovado quem abre os braços, sou eu
Copacabana esta semana, o mar, sou eu
e as borboletas do que fui pousam demais
por entre as flores do asfalto em que tu vais..."

Logo eu, que nunca fui ao Rio, acredita? Eu que não sou personagem de novelas no Leblon, que não tenho relações extraconjugais, que não me chamo Helena e nem gostaria. Aliás, a minha TV é de 20 polegadas que enquadram a falta de identidade com a imagem projetada em movimento de um mundo distante dentro de cenas que não falam por nós. Por isso idolatro. Fantasio com a reportagem sobre lugares em que não estive, altura que jamais alcancei, buraco que eu nunca cavei. Metrô. Já andei. Já me xingaram na lata iluminada. Achei o máximo porque o filho da puta sou eu, que tenho educação. E é tudo assim e é tudo normal. "E as paralelas dos pneus na água da chuva são duas". E as bicicletas, sem paralelas não indicam solidão. Garupa. Assim como quando me carregavam para chegar até à casa da vó. Pertinho. Do coração. Pra que metrô? Pra que motor? Segurar com as duas mãos. Pra não cair. Mas queria levar um brinquedo. Não tinha cestinha. Não tinha como levar. Tia, eu não consigo segurar no banco. Tinha que abraçar. E a parte ruim era quando tinha que descer da garupa.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Suposições

Supostamente
o ouvido estranha
três palavras tão conhecidas
que se transformam em silêncio
homenageando os segundos
em que não te amo

se a vida toda
é pouco tempo
por que um segundo
destrói meu mundo inteiro?

Por ser distraído
saí do seu coração
por apenas um segundo
e deixei a porta aberta

supostamente
um outro alguém
já deve ter entrado

domingo, 13 de setembro de 2009

Sorte e Olhinhos Puxados


O cinema asiático tem se mostrado formidável. O que mais me encanta é a capacidade de se trabalhar com temas extremamente simples de um jeito encantador. Mas não é só isso. Há também o drama forte, o suspense que me faz ofegante e comédias espetaculares. É uma forma de descobrir os sentimentos que movem o outro lado do mundo. Às vezes: estranho. Outras: Identifico. Agradeço que não tenha nascido lá. Lamento por ter nascido aqui. São as faces que revelamos conforme vamos descobrindo as dores e as delícias por não estarmos lá.
Confronto entre a tradição milenar e a modernidade absoluta, a lealdade e a frieza, o raciocínio feroz e a harmonia espiritual. Longe de ser um crítico de cinema, apenas deixo a sugestão para que, sempre que encontrar aqueles olhinhos puxados ilustrando o cartaz de um filme, reserve um espacinho do seu tempo para apreciar boas histórias que podem ensinar muito para a gente (:

E isso tem muito a ver com a mensagem que um biscoito da sorte trouxe para mim. Divido-a com vocês: Atravessar grandes mares traz novos horizontes.
Mar de gente, mar de problemas, mar de coisas para fazer. Mas sempre existe a recompensa e a maior delas é o aprendizado. É a capacidade de mudar, renovar, aceitar. Ver com outros olhos. Ter maturidade para amar. Saber se esquivar da dor e, quando for atingido, saber conviver com ela. Superar. E reconhecer que dentro de você há um coração que pulsa muito por si próprio. E pelos outros também.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Departamento Abstrato de Física: entre o fim e o recomeço

De todos os pesares, fica um legado: a morte de um sentimento confirma a existência da alma. Na fração de segundo que antecede a tristeza, o coração parece comprimir e o corpo se prepara para o movimento de fala, mas não diz. O espaço congela e você toma a decisão de não prosseguir. Tudo estava armado e a centelha propulsora falhou. Os pensamentos, que na verdade são hipóteses do futuro imediato, se cruzam e no tempo microscópico você é irracional. Apenas sente. E tem dificuldades em definir o afeto, conter o ódio. Transparecer lucidez, simular moralidade. Enquanto isso, os sentimentos vão atuando como cargas aleatoriamente energizadas, seguindo a lei da atração dos opostos. Seu corpo se torna um campo de batalhas e após a rendição bastará recolher os destroços e calcular os danos. Os sentimentos extremos neutralizam o espírito e você sente: 78% nitrogênio. E o resto? Atmosfera viva. O coração está pulsando e você não pode negar. Como fugir das sensações que estão dentro de você? Chega a hora de dizer: covarde. E mesmo que ninguém ouça, você está humilhado. Entre os sentimentos velozes você persegue a coragem e se depara com a dignidade. Não pode perdê-la de vista: tenho medo, mas assumo. Como se isso te libertasse da obrigação de ser valente. E a moeda da sinceridade tem duas faces: uma dissimulada e a outra corrupta. E antes que o movimento mínimo do ponteiro do relógio seja confirmado, em você habitam todos os sentimentos do mundo,
em uma fração de segundo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Uma carta e 7 dias: a eficiência dos Correios e a pressa de uma vida

Segunda-feira. O despertador toca e você insiste em pensar que o barulho simplesmente faz parte de um sonho. Não faz. Você se levanta e diz:
- $#@%$#!$#@#.
Conta os dias que faltam para o final de semana. Se hoje é segunda, depois de amanhã será quarta. E quarta e sexta-feira não são a mesma coisa. Aliás, estão muito longe uma da outra. Exclama:
- #$@$#@#$@#$@. Vai demorar!
Sim, sim. Vai demorar.
Até a chegada do final de semana, você tem que viver da maneira que pode: trabalhando, estudando ou esperando (a sexta-feira).

Para mim hoje, as coisas não foram diferentes. O alarme tocou e eu pensei "já!?". Preciso era: ir à luta. Mas antes disso, resposta rápida para dúvidas básicas:

1 - Será que eu preciso tomar banho?
2 - Se precisar, será que dá tempo?
3 - Tenho roupa passada?
4 - Se não tiver, tenho alguma que não preciso passar?
5 - Se não tiver nem uma coisa nem outra, posso sair sem roupa?

Bom, na pior das hipóteses, saio com a roupa meio amarrotada mesmo. Porque, assim como Ronaldo não pode raspar a cabeça, não posso sair sem roupa.

Antes de começar o dia pra valer, precisava enviar uma carta pelo correio. Fácil. Imprimi os arquivos, preenchi os dados necessários, lacrei o envelope. Então, era só chegar à agência amarelinha e fazer o despacho (no sentido não-espiritual da coisa). Até então tinha feito tudo muito rápido, porque havia levantado um pouco atrasado. No caminho para os Correios, meu passo era veloz, o suficiente para não parecer que estava correndo. Até porque, sempre que vejo pessoas correndo pelas ruas, penso que elas querem ir ao banheiro (urgentemente). É constrangedor (para elas). Logo, não corro para não pensarem isso de mim.

Mas eu estava com a pressa habitual de quem sempre parece ter mil coisas para fazer. No caminho passei por uma senhora, que também tinha um envelope nas mãos, e percebi que se eu fosse mais rápido não teria que esperar muito pelo atendimento. Acelerei o passo.

Cheguei à agência. Aquela bagunça de sempre: pacotes por todos os lados, ninguém mandando carta, ninguém atendendo. Ao perceber minha presença, uma das moças no meio da bagunça disse para eu esperar um pouco. Eu esperei. Bastante. Tanto que a senhora que ficou pelo caminho, acabara de chegar à agência.

- Eu quero mandar uma carta!

Disse bem alto, meio que para todo mundo, meio que para ninguém. Eu acho interessante essa mania que algumas pessoas mais velhas tem de anunciar o óbvio. Às vezes parece simpático, outras vezes, irritante. Dessa vez confesso que foi simpático.

Alertada, a atendente veio em nossa direção e parecia buscar na memória alguma informação:

- Você chegou primeiro... disse ela apontando para mim.

Mas parecia que ela não tinha terminado a frase e eu já havia entendido o recado: Thiago, passe a vez.

- Pode atendê-la primeiro, disse eu, voltando os olhos para a senhora.

Cedi a minha vez, que de certa forma, não era minha por direito. Tem que existir compreensão também, que é mais poética que respeito... E olha que eu havia me apressado tanto. Antes de ser atendida, a senhora olhou para mim e disse:

- Obrigada! - e voltando-se para a atendente - Cola um selo pra mim!

Novamente óbvia. E novamente simpática. Perguntou quanto tempo demoraria para a carta chegar ao seu destino e descobriu que levaria sete dias. Antes de partir, disse novamente, dando um tapinha em minhas costas:

- Obrigada!

Fui então atendido e pude me livrar da carta. Depois que saí da agência, percebi que de nada adiantou eu ter me apressado tanto. A gente supervaloriza nosso tempo. E acha isso normal. No caminho de volta, a senhora, que eu ultrapassara para não perder tempo, estava muito na minha frente.

Isso tudo foi apenas uma lição para mostrar o meu egoísmo sobre o tempo. Tempo que não gosto de dividir, que sempre acho que vai acabar, que quase nunca disponho aos outros. O homem tem dificuldades para aceitar o desconhecido. O fato de não sabermos quando os nossos dias vão acabar faz com que sejamos tomados pela pressa e pela vontade de querer viver tudo ao mesmo tempo.

A carta que aquela senhora mandou era destinada a alguém de Campo Belo - MG. Percebi porque achei muito bonita a grafia de quem escreveu no envelope. E penso que talvez aquela seja uma carta para alguém que anseia por notícias e que só irá recebê-las daqui sete dias ou até mais. Enquanto isso, a famosa senhora também vai esperar. O que são sete dias para ela? E de pensar que fiquei irritado ao saber que o documento que eu enviei não poderia ser mandado por e-mail. Um documento sem valor sentimental, que nem anseiam por ele. Que, segundo a balança dos correios, pesa 0,00500kg de pura falta de interesse. O que são sete dias para mim?

Talvez envelhecer seja se desprender de todo esse egoísmo sobre o tempo. É saber que o slogan de viver a vida intensa e loucamente é, em geral, falso. E que é preciso saber esperar. Até que o tempo prove o contrário, o fim está longe, muito longe de chegar. Vida eterna, sobre o solo da Mãe Terra, para nós!

sábado, 29 de agosto de 2009

Quando o coração espera

eu me lembro das suas despedidas
antes de partir para Netuno
e gostaria de saber se as luas de lá
poderiam de alguma forma remeter
àquela que nos fez amantes no espaço
e as estrelas que não podemos ver
escondem mistérios desnecessários
quando eu quero mesmo saber o que
existe dentro de você
de tudo que não posso medir
no bilhete que deixei em seu bolso
você encontrará:
teu infinito sou eu
video

domingo, 23 de agosto de 2009

A maior torcida do mundo

Ontem, antes de dormir, me veio uma antiga lembrança envolvendo uma leonina de 8 de agosto, um irmão mais novo que ainda se maravilhava com as novidades do mundo, um vilão, uma corrida e um exemplo.
Eu, com 4 anos, e minha irmã, com 6, acompanhávamos minha mãe quando, nos finais da tarde, ela caminhava numa velha e pequena pista de pouso de aviões particulares, já desativada.
Numa dessas tardes, a minha irmã encontrou um dente-de-leão, aquela flor que se desfaz com o vento. Eu estava por perto no momento em que ela o soprou, imediatamente desmanchando-o por inteiro. Eu nunca tinha visto aquilo. Maravilhado e, ao mesmo tempo, enciumado, pedi para que ela encontrasse uma outra flor para que eu também pudesse desmanchá-la. No entanto, havia pouquissímas flores como aquela perto de onde nos encontrávamos. Por isso, eu comecei a fazer muita birra. Mas fazer o quê? 'Se acabou, acabou!', não era assim que a mãe falava?
Por falar em mãe, nós estávamos distantes dela. Então recomeçamos a caminhar e você, muito esperta, viu lá longe um dente-de-leão que, para os meus olhos de criança, chegava a brilhar. E eu, sem hesitar, devo ter berrado 'Kari, corre, vai lá pegar!'. Você começou a correr para trazê-lo para mim, mas um outro garoto, maior que você, percebeu que você buscaria a flor e começou a correr para pegá-la também. De repente, vocês estavam apostando uma corrida em busca do dente-de-leão, a sonhada medalha de ouro. Naquele instante, o meu coração de criança começou a torcer muito por você, que corria o mais rápido que podia para alcançar a flor. Eu estava eletrizado, sustentando uma fé imensa de que você traria o dente-de-leão para mim e eu, num sopro de vitória e contemplação, iria descobrir a sensação de desfazê-lo. Eu me lembro de ter gritado 'Vai, corre!!!'. Eu era um torcedor mirim com uma esperança gigante. Já tinha alguma noção de justiça e julguei que aquele menino, por ser grande, já devia ter soprado flores antes. Mas eu não. Era a minha vez então...

Mas não foi assim.

O garoto era muito veloz e, por muito pouco, chegou na sua frente. Alcançando a flor, ele apenas a destruiu com as mãos. Acabou a corrida, acabou a flor, nem existiu o sopro. Sabe a única coisa que restou?

A torcida.

Eu fiquei tão entusiasmado com a corrida, que a birra passou. Não te culpei, você não se lamentou. Apenas fomos para perto de nossa mãe. Depois desse episódio, você correu muitas outras vezes por mim. De lá pra cá, também tive que aprender a correr por conta própria e a descobrir o sabor de vitórias e derrotas. E de tudo o que eu posso guardar, você é o meu grande exemplo. Eu me orgulhei muito de você naquele dia, tanto que nunca o esqueci. E eu continuo me orgulhando. O tempo passou, mudamos de cidade, ganhamos outro irmão... Talvez você possa pensar um dia que ninguém está torcendo por você, que as coisas não vão melhorar, que tudo está acabado. Por precaução, sempre tenha em mente: você é tudo pra mim. Os momentos de tristeza são como aquele dente-de-leão. Duram muito pouco.



Fim das Férias




Início da Saudade

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Velha bola de basquete ou Entropia

Aqui em casa existe um não-cômodo, que aloja objetos, livros e outras papeladas que se mostram inúteis (até o dia em que são jogados fora). Confinados, estes objetos aguardam a decisão do júri - no caso, minha mãe - sobre o seu triste destino. No não-cômodo ainda existe uma velha penteadeira, que é exemplo supremo do que já foi exposto aqui: querida demais para ser jogada fora; feia demais para decorar qualquer quarto.
Desde a última reforma da casa, quando um dos espelhos funcionais acabou sendo retirado, passamos a utilizar o espelho da velha penteadeira para escovarmos nossos lindos cabelos - acabo de tirar uma nota 10 pela breguice dessa frase. Pois bem. Eu estava acalmando o meu cabelo - que de tão rebelde, um dia irá fazer uma rebelião e deixará a minha cabeça em chamas - quando percebi, entre uma boneca velha e a maleta da câmera filmadora do meu pai - que registrou os mais alucinantes casamentos da nossa família e agregados - uma bola enrolada em um saco de lixo. Fiquei bastante curioso porque, pela transparência do plástico velho, aquela parecia ser uma bola de basquete que havíamos comprado há quase dez anos e eu imaginava que ela não existisse mais - afinal eu e meus irmãos éramos uma máquina de destruição. Desenrolei o saco plástico e confirmei a suspeita. Fui tomado por uma felicidade e um sentimento de fuga imenso. Sem hesitar, procurei uma bomba de ar para inflar a velha bola, que estava quase vazia e bastante ressecada. Terminei o serviço e fui até a varanda, não só para testar a velha bola, mas para ver como eu estava fisicamente. Obviamente, a bola estava péssima. E eu também. Quase não quicava, despedaçava mais e mais, voltava a esvaziar - claro, a bola. E eu também.
Depois de algumas passadas, vi que ela não resistiria e que um péssimo atleta com uma péssima bola constituem um péssimo passatempo. Então não havia outra saída: comecei a me lembrar dos tempos em que éramos bons, ela e eu, cada um executando a sua função. E também comecei a perceber como o passado é importante. De pensar que quando eu brincava, aquela bola parecia durar para sempre. E agora ela estava ali, sem função, sem graça, sem valor. E pode parecer bobo, mas costumam dizer que a gente perde o medo de ser ridículo quando começa a ficar maduro: eu tive medo de ficar tão inútil quanto ela. Talvez tenha sido este o motivo que fez com que eu trouxesse a velha bola para o meu presente. Ela veio como um aviso que dizia 'cuidado'. Mas que também implorava 'desista de mim, olhe para frente, eu não sirvo mais'. E depois do que vivi hoje, eu vejo que o passado está intimamente ligado à função de avisar. Mas sinto que ele se despedaça e não pode me acompanhar para sempre. Acho que é por isso que a gente vai perdendo a memória. Eu poderia pedir milhares de vezes para você não se esquecer de mim, mas não tenho este poder.
Guardei a velha bola no mesmo cantinho em que a encontrei. Agora, cabe ao júri decidir se ela vai ou não para o lixo. E eu vejo que o maior presente que se pode receber é a honra de ser inesquecível para alguém. E quem iria imaginar que o desimportante não-cômodo é a memória da minha casa...

domingo, 16 de agosto de 2009

Porque ele deu o que falar

A visita do meu priminho foi algo maravilhoso para nós. A casa ganhou, ou melhor, perdeu muitos anos de vida. Ficou mais jovem, mais agitada e muito, mas muito mais barulhenta. Isso porque meu priminho é viciado em filmes e fala muito alto, a ponto de pensarmos há algum tempo que ele fosse surdo. Mesmo se você estiver ao lado dele, ele irá gritar ao te responder. Mas isso é mania herdada dos meus barulhentos parentes por parte de mãe. Se Elisângela está na sala e quer falar com Leandro, que está na cozinha, ela não se levanta e ele fica onde está. Eles irão conversar, mas cada um no seu canto. A gritaria é mais nítida que som de tv digital.
Não estávamos mais acostumados a ter visitas com tão pouca idade, então houve uma sensação de renascimento para nós. Não quer dizer que tenha sido puramente prazeroso. Criança, de fato, dá muito trabalho. E não sei se vocês já perceberam, mas em uma casa, a criança está em todo lugar. Não havia um cômodo imune ao meu primo, onde pudéssemos ler ou ter um pouco de silêncio. Sem falar que ele dominou a programação da tv, o videogame do meu irmão, o computador... As crianças de hoje em dia estão demais. E as de antigamente também. Criança é criança e ponto.
Superamos muito bem o fato de termos as nossas escolhas limitadas para deixá-lo mais feliz. Junto com ele, vieram minha tia e minha vó. Foi um prazer tê-las aqui e abrir mão do sossego constante do nosso lar, afinal, elas são pessoas que dedicaram muito de suas vidas por nós. Mas falarei de cada uma delas em outra oportunidade.
O que eu mais gosto do meu primo é que ele é muito comunicativo e não sou eu quem luta incessantemente pela atenção dele, nem o inverso, mas ele acaba me envolvendo em suas conversas e vontades de criança de maneira muito natural. Ele me faz interagir em um universo que eu jurava ser incapaz de voltar a pertencer.
O mais interessante são as situações que ele cria. Sem um pingo de vergonha ou malandragem, ele se mete em muitas confusões. E foi isso que me levou a criar este texto: a sua última travessura aqui em casa.
Fiz uma viagem rápida a Uberlândia, para apresentar um trabalho, e lá comprei algumas lembranças para os nossos visitantes. Para o meu primo, comprei um porta-retrato que tinha na moldura um garotinho muito parecido com ele e para a minha vó comprei um cristal com uma base luminosa que, de uma forma inusitada, representava Jesus numa boate. Era um charme. Fascinado pelas luzes de cores aleatórias, meu primo logo mostrou interesse pela prenda alheia. Mas não podia. "Presente é presente", lhe foi explicado. Ele ficou emburrado, andando de um lado pro outro, com uma cara desconfiada. Como minhã irmã iria levá-lo a um passeio, minha tia deu a ele algum dinheiro. E não é que ele apareceu beliscando a minha vó com uma nota de vinte reais, cochichando algo que, no momento, era particular entre eles. Mas minha vó, a procriadora dos altofalantes da família, foi logo alertando em alto e bom tom:

- Vê se pode uma coisa dessas, o menino quer comprar o meu presente! A vó não vai vender não!

Nosso silêncio confuso foi logo quebrado por gargalhadas que se cruzavam desesperadas. Com a negociação exposta, ele insistiu:

- Ah vó, me vende. Que coisa!

E foi assim que o suborno mal sucedido foi revelado. Meu priminho fechou com chave de ouro a sua saga de armações nessas férias que, sem sombra de dúvida, vão deixar marcas eternas em nossas vidas.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Quando o homem se desfaz

Eu confesso.
Para quê?

Tem crescido o número de pessoas que encontram no anonimato da internet um refúgio para falar sobre as suas aventuras proibidas. Não muito distante, as autobiografias de pessoas renomadas (ou não) surgem no mesmo cenário da confissão como uma forma de redenção a boatos, verdades e mentiras que rodeiam o universo dos famosos. Mas em meio a tanta informação, qual a linha que separa a realidade da dissimulação?

Revelando a identidade ou não, tais publicações têm um único propósito: confessar. Nos moldes religiosos a confissão aparece como uma ferramenta de libertação e autoavaliação pela busca do tão sonhado perdão. O que pode também ser estendido ao cenário social: confessamos porque não suportamos. Guardar um segredo é difícil. E só é segredo aquilo que nasce dentro você e só você sabe. Não existe segredo dos outros que você conheça.

Mas para revelar um segredo, muitas vezes nós mentimos. Não é proposital. Sabe a sensação que tenho? É que o segredo tem uma forma dentro da gente e outra quando tentamos colocá-lo para fora. Usamos jogos de palavras para amenizarmos a dor, o constrangimento, o ódio e acabamos desvirtuando o segredo. Isso porque só temos coragem de confessar quando o perdão é viável. Tentamos invocar a piedade, despertá-la dentro daquele que nos ouve. Então, pode a confissão ser honesta e ao mesmo tempo não ser verdadeira? Ou carregar uma verdade que está além dos limites que as palavras conseguem superar?

Posso me lembrar perfeitamente da minha primeira e única confissão a um padre. Foi, sem sombra de dúvida, a lição mais difícil da catequese. Esperei por horas e quando chegou a minha vez, eu fiquei sem chão. Como eu, na época um moleque endiabrado, com o capeta no corpo como dizia minha mãe, iria falar dos meus infinitos pecados para o padre, que na minha visão de moleque atentado, era um quase-Jesus-Cristo-puríssimo em pessoa? Pensei "Meu Deus, se ele souber de tudo, eu vou pro inferno". Depois lembrei da advertência da catequista: o padre pode não saber, mas Deus sabe de tudo. T-u-d-o". E imediatamente pensei "Deus, olhahein. Bico calado. De fofoqueiro, já basta Judas". E chegou a minha vez. Era a hora da confissão. Eu tentava ferozmente me lembrar dos 7 pecados capitais e dos 10 mandamentos. O que viesse era lucro. O padre perguntou algumas trivialidades e só então pediu para que eu me confessasse. Eu devo ter dito apenas três coisas. A primeira, da qual me recordo muito bem, foi a de ter acusado falso testemunho. Era muito comum nas brincadeiras de esconde-esconde. A outra deve ter sido gula. Básico, você já viu magro comer pouco? E por fim, preguiça. Terminada a confissão, o padre pediu pra que eu rezasse 5 vezes o Pai-Nosso e a Ave-Maria. Mas eu estava com medo, afinal, eu não tinha me confessado direito. Fui lá e rezei 10 vezes. Ainda arrisquei uma Salve-Rainha, a mais difícil de todas! Que alívio. Então, era só não cometer mais pecados e manter Deus em silêncio que o meu passe pro Céu estava garantido.

E confessando isso pra vocês, sabe que me bate uma pena.
É uma pena a gente crescer. E eu sinto saudade também. Dá vontade de voltar no tempo e dar um abraço bem forte naquele Thiago endiabrado que, mesmo cheio de pecados, era muito feliz.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Alô Mulheres!

Vocês estão sendo muito mal representadas. No Fantástico, programa da Rede Globo, o quadro Liga das Mulheres mostra o comportamento feminino e alguns problemas ligados a ele. Nas últimas semanas, tem sido mostrada a história de Kátia, bancária, loura e louca para casar. A missão da liga é descobrir por qual razão Kátia está encalhada.
Até ai tudo bem. Muita gente está encalhada e não sabe bem o porquê. Meio mundo anda reclamando que está a procura de um relacionamento sério, mas sem sucesso.
Kátia procura seu amor em baladas fervorosas, se veste com roupas mínimas, tem um papo nada a ver e já chega botando pressão: eu quero casar!
Não há homem imune ao susto. Fuga na certa. Ela me lembra aquela música do Cazuza, genial "A tua piscina tá cheia de ratos, tuas ideias não correspondem aos fatos".
Kátia está ferrada. Não sendo suficiente estar no lugar errado, na hora errada e com pessoas erradas, ela vem recebendo a ajuda de mulheres que se vestem muito bem, modernas no vocabulário mas que na hora do vamos ver... são umas tapadas. Não incentivam Kátia a ser quem ela é, tentam mudar o visual e a personalidade da moça, atacam-na com críticas melosas e acabam transformando a bancária em um personagem ridículo e caricato que precisa ser exterminado do espaço.
Seguido a isso, arrumaram para Kátia um encontro de solteiros. Ela pôde bater um papo master num tempo recorde de 5 a 7 minutos com um cara que, pelas suas intenções, tem tudo para ser seu marido. Nossa, existe amor no fundo do poço?
Kátia está se transformando em uma nova mulher que, do ponto de vista da liga das tapadas, é dona da receita do sucesso. Mas essa nova mulher, incoporada por Kátia não possui nada da essência daquela loura e louca pra casar que iniciou o quadro. Com certeza no final da saga veremos a bancária com um homem apaixonado por uma Kátia que não é quem aparenta ser. Ela é o resultado de uma ilusão, de uma transformação forçada e forjada pela mídia. Kátia não é.
Uma antítese à liga das mulheres foi mostrada no programa Happy Hour, do GNT, também da Globosat. No programa foi discutido relacionamentos que começam pelo mundo virtual, a opção de estar solteiro e duas coisas que eu particularmente adorei. A primeira foi que não temos o poder de condenar ninguém, antes mesmo de assumirmos uma relação, a ter algo sério conosco. O compromisso prévio com desconhecidos é sempre falho e pode causar o efeito contrário. Alguém que tinha tudo pra ficar ao seu lado a vida inteira acaba te dando um pé na bunda logo na primeira semana por causa do seu desespero em forçar algo que deve acontecer naturalmente. O outro ponto da discussão que eu gostei bastante foi o fato de sempre vermos o amor como a causa dos relacionamentos, quando na verdade ele é apenas uma consequência, ou de uma maneira mais romântica, uma recompensa.
Então, se o amor não segue uma linha lógica ou racional, não há liga de mulheres com cabelinho dos Jetsons que pode solucionar o caso. Cada um tem que ser dono do rumo que o coração escolhe. Uma ajudinha sempre é boa. Mas essa ajuda tem que vir para valorizar o que você tem de melhor, vir de pessoas que sabem das delícias da sua companhia. Não de pessoas que querem te mudar por inteiro pra ver se chove na sua horta.
Amor e meteorologia são ciências próximas. Não há tempestade que obedeça à moça do tempo.

domingo, 9 de agosto de 2009

Para você, que é tudo pra mim

Foi de noite que Martim teve um pensamento mais ou menos assim: se a história de uma pessoa não seria sempre a história de seu fracasso. Através do qual... o quê? Através do qual, ponto. Em seguida, relutante em utilizar esse pensamento, refugiou-se no pensamento sobre seu filho. Pois o amor pelo seu filho era uma das verdades de que ele mais gostava.

- A maçã no escuro, Clarice Lispector


Pai, duas coisas não cabem no poema: o preço do feijão e o meu amor por você.

AMOR:
a.mor
sm (lat amore) 1 afeição. 2 ligação espiritual. 3 admiração. 4 respeito. 5 amizade. 6 benevolência... Infinito tudo o que sinto pelo meu pai.

domingo, 2 de agosto de 2009

Teste de Hipótese

Se trabalhasse em um programa de rádio, começaria tocando músicas do Legião ou então do Djavan, intercalaria com algum rock internacional dos anos 80 ou quem sabe Adriana Calcanhotto e terminaria com algo contemporâneo e clichê, como Halo ou Closer... 'to own me, to control me... and I just can't bring myself away but I don't want to escape... I just can't stop... I just can't stop!'

Se fosse professor de literatura, indicaria de cara um livro bem triste, Nada de novo no Front ou então alguma obra do Graciliano. Depois, indicaria Clarice ou Fernando Sabino e por fim, alguma revista de fofoca, daquelas em que nem é preciso folhear: já vem tudo escrito na capa. Você já sabe que o Raj vai largar da Maya pra ficar com o Bahuan, que está grávido do Opash, que emagraceu 8 quilos em uma noite sem fazer dieta - pasmem - apenas com a roupa e a maquiagem certas! Mas na verdade você acaba levando a revista por causa do encarte de receitas que contém, por exemplo, o segredo do bolo de acabaxi mais calórico e fofinho desde os tempos em que a Palmirinha era moça. Abacaxi tem semente? E como que faz pra plantá-lo? Bom, eu perguntei pra minha vó e ela disse que eles usam aquela "corôa" para plantá-lo. Não sei se é verdade (desculpa vó). Mas a minha vó é daquele tipo de pessoa que quando não sabe alguma coisa, inventa. Eu sou assim também. Acho que é por isso que quase nunca entrego uma prova em branco. Pausa para meu riso compulsivo. Pausa para o riso contido do professor. Um minuto fúnebre de silêncio pela minha nota baixa.

Bom, voltando às hipóteses.

Se fosse dar dicas de cinema, escolheria de imediato os filmes do Chaplin, pelas ideias fundamentais que ele passa, tanto para o cinema quanto para os humanos. E acho que terminaria com As Branquelas ou Vestida para Casar. Também recomendaria algum filme argentino, pra que as pessoas percebessem o quanto nosso país parou no tempo. Os nossos hermanos sabem muito de cinema. E sabem muito sobre os problemas da sociedade deles também.

E eu me pergunto o porquê de tudo isso. Acho que é apenas para dizer o quanto é difícil se definir. Até nas pequenas coisas. E que não há nada de sobrenatural em ser ambíguo. Acho que a gente só tem a perder quando joga em um time só. Por exemplo, quem aqui já foi vilão, mesmo que sem querer?

Odete Roitman: _o/
Nazaré Tedesco: _o/
Thiago: _o/

E quem já fez o bem, sem olhar a quem?

Mahatma Gandhi: _o/
Thiago: _o/
Odete Roitman: ¬¬' ... suspense ... _o/

Algumas coisas nós não precisamos encontrar. Mas devemos saber que elas existem. Por exemplo: dentro de você há uma paixão imensa que irá despertar quando vier a pessoa certa. Mesmo que esta pessoa não exista, deve existir a paixão. Assim como o desejo, o ódio, o pudor, o sexo descompromissado, o amor eterno, os extremos. Porque de um extremo ao outro eu estou dentro de mim. E eu sou um universo inteiro. Eu acho que a grande busca sempre começa dentro de si próprio. Devorar você: esta é a lição de casa.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Quando me foge uma história

Eu preciso aprender a perdoar, a relevar e a ser menos atencioso. Eu me sinto tão ferido por ouvir certas coisas, por deixar de falar outras, por não esquecê-las. O fato de ouvir algo indesejado e não ter força para falar me mata duas vezes. Eu estou morrendo. Quando decido ser sincero e falar o que penso de imediato, a morte provocada pelo silêncio é substituída pela morte de ter deixado alguém chateado. O certo a fazer é explodir algumas coisas dentro de nós e outras fora. Mas por que diabos o certo é tão incerto? Às vezes bate um arrependimento em ser gente. O pior de tudo é que não planejo vinganças, mas tenho certos rancores. É estranho confessar isso. Na verdade é incomum ser sincero desta maneira. Não me venha dizer que falta fé, família, educação, o escambau, porque não é isso. Não falta nada. Sobra. Se pra ir por céu tem que perdoar e se pra perdoar tem que esquecer, puta que pariu, já tô com os dois pés no inferno. Não quero o mal de ninguém, que seja cada um feliz a sua maneira. Mas se eu disser que eu esqueci as coisas ruins que me fizeram ou disseram, eu estarei mentindo. E se eu disser que se um dia estas pessoas precisarem de mim eu ajudarei de coração aberto, eu também vou estar mentindo. Não sou de ficar fazendo remendos. Quebrou? Jogo fora. Por vezes penso que se Deus quer mesmo que a gente ame todo mundo, por que deu uma boca tão maldita pra alguns e uns pensamentos tão malignos para outros (me encaixo aqui)? Depois me lembro que Deus não tem nada a ver com isso e que eu estou paranóico. Nesse mundo cheio de gente chata falando tudo o que não presta ao mesmo tempo, tem dias que eu queria mesmo era ser uma ilha.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Vi e Ri

1º - Clarice Lispector - Conto: Via Crucis

Maria das Dores se assustou. Mas se assustou de fato.
Começou pela menstruação que não veio. Isso a surpreendeu porque ela era muito regular.
Passaram-se mais dois meses e nada. Foi a uma ginecologista. Esta diagnosticou uma evidente gravidez.
- Não pode ser! gritou Maria das Dores.
- Por quê? a senhora não é casada?
- Sou, mas sou virgem, meu marido nunca me tocou. Primeiro porque ele é homem paciente, segundo porque já é meio impotente.


2º - O blog da Cleycianne de Jesus.

Deus é mais. Deus é poder. Liberado matar. Proibido Foder. Uma serva de Deus no mundo da internet. Hallelujah. A melhor ideia de todos os tempos da última semana. Ela é um verdadeiro sucesso.


3º - Do meu priminho.

Depois de brincar em todos os brinquedos do shopping, ele aponta para um cesto em forma de palhaço e diz:
- Quero brincar naquele dali.
- Tá doido menino, aquilo ali é o lixo.

domingo, 19 de julho de 2009

O título vem por último

1ª - Parte

E este sentimento que desorienta satélites
é capaz de sair de órbita um dia?
Não devemos acreditar na eternidade.
Que seja apenas honesto e verdadeiro.
Por não disparar alarmes,
quando pensamos que está perto do fim, o amor já terminou.
Quando queremos deixá-lo entrar, ele já se hospedou.
A ironia do amor é o tempo
e a contradição é o espaço.
De que adianta procurá-lo
se ele já veio séculos atrás
em um lugar
que você não habita mais?



2ª - Parte

Um teste muito bacana:

Que Livro É Você?

Disponível em : Educar Para Crescer

Meu Resultado:

"O vampiro de Curitiba", de Dalton Trevisan

Descolado, objetivo e realista. Cult. Você deve se sentir mais à vontade longe de shoppings, da TV e de qualquer coisa que grite “cultura de massa”. Nada de meias palavras: a elas, você prefere o silêncio. Você não vê o mundo através de lentes cor-de-rosa, muito pelo contrário. Procura ver o mundo como ele é, entendê-lo, senti-lo. Às vezes, bate até aquele sentimento de exclusão, ou de solidão. Mas é o preço que se paga por ser um pouco "marginal". Não se preocupe, pois você atrai a admiração de pessoas como você: modernas no melhor sentido da palavra.
Em "O vampiro de Curitiba" (1965), Nelsinho protagoniza uma variedade de contos, nos quais ele busca satisfazer sua obsessão sexual vagando pelas ruas de Curitiba - paralelamente, esta cidade de contrastes se revela ao leitor. A temática e a forma já denunciam: este não é um livro para qualquer um. Tem que ter cabeça aberta para enfrentar a linguagem nua e crua de Trevisan, que é reverenciado pelo leitor capaz de driblar velhos ranços burgueses.

Gostei. Adoro Dalton Trevisan. Me fez lembrar de Sombras na Parede, a minha novela indecente \o/

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Cause you're hot then you're cold

Um título fútil para falar de um assunto igualmente fútil. Antes que vocês se precipitem e chamem todos do bairro para ler o meu texto, deixo o aviso: não é sobre o meu corpo. Divino, maravilhoso e desejado. Não, estes adjetivos não estão ligados ao meu corpo. Falo a respeito do assunto fútil que iremos tratar. Vou falar sobre a vontade de escrever para o blog, ligar o computador, abrir o editor de textos e... não ter sucesso.


Um /beijo/abraço/aperto de mão/meu corpo inteiro/ pra vocês.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Música + Filme

Primeiro, a música:



E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce

Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti

Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti


Depois, o filme:

Em Paris (Dans Paris)

Paul (o ótimo Romain Duris, de "Albergue espanhol") acabou de sair de um casamento. Romântico, não sabe lidar com a perda e a saudade e termina voltando para a casa do pai (um Guy Marchand adorável), o chefe de família tão amoroso quanto desajeitado em demonstrar seu amor. Lá, Paul passa a dividir o teto com seu irmão Jonathan (o inspirado Louis Garrel, de "Os sonhadores"), a melhor tradução para a expressão "alma livre": estudante relaxado, filho desleixado, amante insaciável.

A tristeza de Paul contrasta com a alegria de Jonathan. No entanto, do meio de sua aparente superficialidade, este último resolve fazer de tudo para resgatar o irmão de seu incômodo sentimental. É aí que o diretor estabelece o amor incondicional entre os dois, o que move todo o filme. Mas não há nada de convencional nesta história. Jonathan resolve convidar Paul a sair pelas ruas de Paris, mas vai sozinho. Apesar disso, o diretor sabe mostrar, nesta distância, a forte relação entre os irmãos.





Vale muito a pena. Quanto mais eu gosto de um filme, menos eu consigo falar sobre ele. Talvez porque sempre acho que as minhas palavras não estão à altura. O filme é, sobretudo, um retrato de amor. Mas é sobre amor de verdade e não sobre esse amores doces, feitos de açúcar, que derretem na primeira chuva que enfrentam.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Dó, a nota musical da piedade

Hoje eu ouvi uma música do Michael Bublé, que diz "cercado talvez por milhões de pessoas eu ainda me sinto sozinho... sinto sua falta, você sabe". Mãe, que saudade. Você me ligou hoje e ao mesmo tempo em que falava com você eu tentava resolver um exercício sobre porosidade de leito fixo. Não sabe o que é leito fixo, mãe? É algo muito menos importante do que a conversa que nós tivemos hoje. Você me perguntou sobre as provas, as despesas e falou sobre a minha irmã, que também irá precisar de sorte com a faculdade (malditas engenharias) e eu estou torcendo muito por ela, mais do que por mim. Eu nem sei se mereço ter tudo que tenho, mas tenho certeza que ela merece vencer. A mesma música também diz "Eu tenho muita sorte, mas eu quero voltar para casa" e é realmente tudo o que eu quero neste instante. Não sinto exatamente tristeza. É um aperto no peito de angústia e medo de decepcionar as pessoas que eu gosto. Só para não esquecer, a música ainda tem um trecho que diz "Este não era o seu sonho, mas você sempre acreditou em mim", então não sei ao certo porque me sinto angustiado. Quero que o tempo passe devagar para dar tempo de fazer tudo aquilo que tenho que fazer... quero que passe rápido para me livrar destes pesos. Se passar muito rápido, já era. Se passar muito devagar, eu explodo.
Meu Deus, como eu estou crescendo. Quando me olho no espelho, eu vejo que estou perdendo meus traços de menino. O meu olhar também está diferente. Mas o que mais me assusta é que, quando vejo um adolescente com seus 15,16,17 anos, eu tenho visões alienígenas. Eles voltaram a ser incompreensíveis. E pelo que a gente aprendeu, só adolescente entende adolescente. As justificativas para as nossas falhas diminuem conforme crescemos e temos que encarar as coisas de frente. Ser dono da situação. Ter controle. Acho que isso é o mais difícil. Por analogia, seria o mesmo que incentivar uma criança a comer verduras para crescer saudável. É horrível. Lembra? Quando você terminava de comer as benditas verduras, recebia alguns elogios falsos e pronto, estava satisfeito. Não pelas verduras e o possível bem que elas fazem, mas por ter recebido a atenção de alguém maior que você. Deus, como pode? Hoje as coisas ainda são assim. Pequenas mudanças de personagens e cenários, mas o enredo é o mesmo. Pra continuar falando de música, estou ouvindo a canção da banda Ben Folds, "Still Fighting It", linda por sinal, que diz:

"Todo mundo sabe que crescer dói
E todos crescem
É tão estranho estar de volta aqui
Deixe-me dizer a você
Os anos passam
E ainda estamos lutando
Você é tão parecido comigo
Sinto muito... "

É estranho mesmo. Quanta gente já nasceu, cresceu e morreu para nos dar o exemplo. E a gente aprende tão pouco sobre viver. Sobreviver. Já contou quantos dias de vida você teve até hoje? Não, não conte. Não vale a pena. Pense só na sua felicidade e no que pode te afastar dela. Eu assisti um filme muito cativante chamado "Ensina-me a Viver" e a trilha dele era repleta de músicas do Cat Stevens. Em uma das canções, ele ensina "Olhe para mim, estou velho mas estou feliz. Pense sobre tudo o que você tem. Você pode ainda estar aqui amanhã, mas seus sonhos não". E eu encerro o musical desafinado dos meus sentimentos com essa canção. Vou dormir e, quem sabe, sonhar.