quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A sensação do novo ou Enquanto houver esperança

Só pra começar, devo dizer:

sinto falta de tudo.

Hoje faz uma semana que eu cheguei em Toronto e é impressionante como a saudade está imensa, apesar do pouco tempo far from home. Acho que é porque eu estou longe de verdade desta vez e também por causa da correria das festas de fim de ano e tudo aquilo que elas envolvem.

A experiência de passar um tempo fora do Brasil está sendo válida. Primeiro de tudo, pela neve. Pelo que percebi, os nativos a odeiam. Eles bem que podiam transportá-la pro Brasil. Mas o fato é que ela torna tudo mais charmoso, ao meu ver. E eu, quando saio de casa atrasado e loucamente desarrumado para ir à aula naquele frio tremendo, penso comigo: eu não estou combinando com este lugar tão bonito. A gente tenta alinhar a roupa, ajeitar o cabelo, mas não tem jeito.

O que mais me chamou a atenção foi o fato de que, quando se está longe de tudo, andando sem direção e sem compromisso, "conhecer" vira sinônimo de se apaixonar. Não só por prédios ou lagos. Mas por pessoas também. Acho tão amável quando alguém vem conversar comigo. Hoje mesmo eu estava andando pelas ruas e na hora de voltar para casa eu decidi entrar em uma estação de metrô diferente da usual e, como já era de se esperar, eu não sabia se pegava o trem da esquerda ou o direita. Abri o meu guia e antes mesmo que eu pudesse conferir a direção apareceu uma senhora e me perguntou se eu precisava de ajuda. Acontece que eu me desespero um pouco pra falar quando eu sei que, se a tecla SAP falhar, eu não tenho ao que recorrer. Mas no final das contas a gente se entendeu, agradeci fervorosamente, como um bom brasileiro, e consegui chegar em casa.
E foi no metrô que eu arrumei um exemplar de jornal com uma matéria muito bonita sobre Miep Gies. Não sabe quem é? Eu também não sabia. De forma resumida, Gies foi uma das pessoas não-judias que se dispuseram a esconder Anne Frank e sua família dos nazistas. Quando Anne foi capturada, transportada e morta nos campos de concentração, Gies manteve o diário de Frank preservado. Quando o pai de Anne, único sobrevivente da família, retornou a Amsterdã, Gies entregou-lhe o diário, tornando possível a sua publicação para mais de 30 milhões de pessoas em 67 idiomas.
Com uma tradução rápida, segue o trecho da matéria que eu achei mais bonito:
"Mesmo passando a vida sendo testemunha da coragem e humanidade de Anne Frank, Gies subestima a sua própria coragem. "Eu não sou uma heroína", diz ela muitas vezes. Ela estremece todas as vezes em que as pessoas a veem desta maneira, fazendo com que todos duvidem da sua própria capacidade de fazer o mesmo. E ela diz que fez isso simplesmente porque pareceu necessário na época.
Por boa parte da minha vida eu pensei o que eu consideraria necessário na mesma situação. O que me preocupa é o fato de que, como milhões de pessoas, eu apenas abaixaria a minha cabeça, ou pior, escreveria uma coluna pró-Nazista com bastante entusiasmo. É muito mais fácil ser covarde.
Mas eu gosto de pensar que, se uma frágil mulher, uma simples secretária, foi capaz de permanecer gigante e corajosa diante do inferno, então eu também sou capaz. E quanto a você? Enquanto nós pudermos lembrar de Miep Gies e sua formidável história, existirá esperança para todos nós.
Miep Gies faleceu nesta Segunda, pela noite. Ela foi minha heroína."

4 comentários:

Juliana disse...

Lindo!
Bonitas historias!
bjuh

Fernanda disse...

ah que vontade de viajar também,tem coisa melhor? aproveita muuuuuuuuuuuuuuito ai!!!!

Ana Aitak disse...

Você não tem jeito, mesmo de mais longe continua encantando a gente, e cada vez mais. Mil beijus e aproveita por todos nós que não estamos aí, mas ficamos com muita vontade, depois de te ler...abraços carinhosos

defélix, disse...

Lindo!
a infeliz verdade:
"É muito mais fácil ser covarde."

obrigado pelo texto!
e parabéns!
e aproveita o Canadá!

meu sonho ir pra lá um dia! *-*