domingo, 2 de novembro de 2008

Um texto do passado

Visitei o blog da Ana e encontrei um texto do Max Gehringer [um ótimo texto] e me lembrei que o texto abaixo, também de sua autoria, me acompanhou por um ano inteiro. Estava começando o terceiro ano do ensino médio e o usava como inspiração. Não tenho saudades do ensino médio [perdoe-me a sinceridade], mas desse texto e da maneira como eu me senti quando terminei de lê-lo pela primeira vez... sinto a tal saudade daquilo que eu já fui um dia [um dia desses, não muito longe de
hoje]!

O que é... ontem


É um tempo em que as palavras 'sonhos' e 'planos' são sinônimos perfeitos

Ontem, por mera coincidência, revi uma pessoa que não encontrava há muito, muito tempo. Nosso último contato aconteceu ainda nos bancos escolares, quando ela e eu tínhamos 14 anos. As lembranças daquela época foram surgindo aos poucos, meio fora de foco no princípio, mas não demorou para que trouxessem de volta algumas histórias que ficaram esquecidas em páginas do passado. O que mais me chamou a atenção nesse encontro é que aquela pessoa conservava os mesmos traços, o mesmo sorriso despreocupado, o mesmo brilho no olhar. E, principalmente, a mesma atitude de desafio perante as dificuldades da vida -- dificuldades que, naqueles tempos, davam a impressão de que seriam facilmente superáveis, quaisquer que viessem a ser. Então, parei um momento para refletir.

Ao contrário dela, eu havia mudado bastante. Tornei-me um pouco mais cético, bem mais cínico, muito mais desconfiado e, confesso, tive mais decepções do que imaginava que viria a ter. Aquela pessoa e eu, há tantos anos, tínhamos exatamente os mesmos sonhos. A maioria deles, hoje eu sei, era irrealizável por natureza. Lembro-me, por exemplo, que eu queria aprender a ler pensamentos. Queria voar por minha própria dinâmica, como se tivesse asas. E acreditava, com absoluta convicção, que seria capaz de fazer essas e muitas coisas impossíveis. Porque eu não apenas tinha o tempo a meu favor, mas tinha principalmente aquela saudável falta de medo, típica da juventude, que nos faz acreditar que o mundo em essência é simples e que os adultos vivem engajados em uma monumental campanha para torná-lo cada vez mais complicado.

Trabalhar, por exemplo. O que poderia ser mais fácil do que entrar em uma empresa, fazer novas amizades, ter grandes idéias, ser reconhecido e promovido, viajar pelo mundo inteiro e, ainda por cima, ganhar muito dinheiro? E o melhor de tudo era que, com o talento que eu acreditava ter, todas essas coisas aconteceriam em questão de dois ou três anos, no máximo. Hoje eu sei que não é bem assim, mas hoje é hoje. É por isso que é bom encontrar alguém que nos transporte de volta para ontem, quando as palavras "sonhos" e "planos" eram sinônimos perfeitos. É em momentos assim que a gente pára e faz um balanço da vida, para perceber que não perdemos oportunidades; o que perdemos foi boa parte da confiança que tínhamos em nós mesmos. E aquela pessoa estava ali, bem na minha frente, para comprovar isso.

Então, fechei o álbum de fotografias. A pessoa que eu havia encontrado após tanto tempo era eu mesmo, num retrato quase esquecido. A foto me lembrou que, um dia, eu já fui alguém mais corajoso e bem mais confiante do que sou hoje. Aquela pessoa que fui enxergava o mundo como uma ampla avenida, em que as luzes de todos os faróis estavam sempre verdes. E a pessoa que eu me tornei passou a se concentrar mais nas ruas sem saída. Não deixa de ser irônico pensar que estudamos tanto e aprendemos tanta coisa apenas para, um belo dia, perceber que nossas dificuldades presentes não são o resultado do muito que conseguimos nos tornar: elas são a conseqüência do pouco que deixamos de ser.

Revista Você S/A Edição 78 - Janeiro de 2005

3 comentários:

Ana disse...

Coincidência, os textos foram escritos no mesmo ano. Se completaram na leitura que fiz deles,talvez pra você também.Coisa boa esse encontro pelas leituras e sentimentos da vida, fico feliz demais. OBrigada.

Juliana disse...

Thi!!! Eu me lembro desse texto!!!
Ele eh show!!!
Voce se lembra...que eu me lembro?
ahusdhaudhau
bjukas dear...
Juh

Fenix disse...

Esse texto do Max é maravilhoso, mas não pude compreendê-lo totalmente. Talvez eu o entenda melhor quando estiver com uns quarenta anos. Pois, ainda acredito que os planos impossíveis podem ser realizados. Talvez eu seja confiante de mais...