sábado, 14 de fevereiro de 2009

A saga dos 7 anos / Parte 1

Quando eu tinha sete anos - porque era esse o pressuposto - eu ficava me imaginando adulto. Eram os adultos da minha casa, os adultos da novela e os adultos do serviço do meu pai que visitavam a minha mente. Os adultos eram tão padrões para mim que tanto fazia ser um ou outro. Eu só lembro que não queria ter barba e nem ser baixinho. O resto era algo que eu julgava ser irremediável e imutável, algo comum a todos os crescidos. Eu não sabia ao certo como um homem encontrava uma mulher e porque eles decidiam se casar. Eu achava que havia uma idade específica para que as coisas pudessem acontecer. Ficava muito assustado quando via uma mulher velha e solteira ao mesmo tempo. Tentava decifrar o porquê desse infeliz estado civil: era muito chata talvez, muito alta - porque o homem deveria ser mais alto e mais velho que a mulher, é claro - ou talvez não gostasse de dormir em cama de casal. Talvez não se depilasse, porque eu fiquei sabendo que as mulheres nasciam condenadas a um gênero com extrema aversão a pêlos. Já os homem tinham aversão aos cuidados estéticos. Ouvia conselhos para minha mãe grávida: menino é mais fácil, porque menina a gente tem que arrumar demais, menino não. E eu já começava a entender a diferença entre homens e mulheres: os meninos falavam mal das meninas; as meninas falavam mal das meninas. E dos meninos. Eu via os casais e ficava pensando no tanto que eu teria que me esforçar pra ter coragem de beijar alguém. O divórcio estava muito na moda, então quando via casais brigando, eu já imaginava cada um seguindo a sua vida, assinando aqueles papéis que eu via na novela e que não fazia idéia do que se tratava, só nas consequências: não morariam mais na mesma casa. O estranho é que eu já nasci acostumado à ideia de que só se deve casar com uma pessoa e que não é bonito beijar outra pessoa quando se está casado. Mas não é por causa da nossa cultura ou dos exemplos que são dados. É porque tem coisas que os adultos não falam pras crianças. Só por isso. Que criança nunca levou uma bronca por falar uma palavra de adulto? E que criança nunca se sentiu injustiçada por isso? É claro, o pai e a mãe podem dizer que você está crescidinho demais pra fazer isso ou aquilo, mas você não pode falar pro pai que ele também está. Pra mãe, piorou. Porque quando você fala alguma coisa pro pai, ele culpa a mãe. Quando você fala alguma coisa pra mãe, ela culpa você e o pai. Quando eu tinha sete anos - porque era esse o pressuposto - eu mudei de casa. Mais de uma vez. Mas isso fica pra depois. Porque quando se tem sete anos, a gente tem que esperar demais.

2 comentários:

Fernanda disse...

acredito que isso acontece com todas as crianças...
ha se elas soubessem como é bom a infancia...
adorava a minha
e hoje gostaria de ser para sempre criança.pena que já cresci=/

o MeninO do lado_ disse...

Engraçado pareçe que aos sete anos, coisas exotéricas passam pelas nossas cabeças xD