segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Uma carta e 7 dias: a eficiência dos Correios e a pressa de uma vida

Segunda-feira. O despertador toca e você insiste em pensar que o barulho simplesmente faz parte de um sonho. Não faz. Você se levanta e diz:
- $#@%$#!$#@#.
Conta os dias que faltam para o final de semana. Se hoje é segunda, depois de amanhã será quarta. E quarta e sexta-feira não são a mesma coisa. Aliás, estão muito longe uma da outra. Exclama:
- #$@$#@#$@#$@. Vai demorar!
Sim, sim. Vai demorar.
Até a chegada do final de semana, você tem que viver da maneira que pode: trabalhando, estudando ou esperando (a sexta-feira).

Para mim hoje, as coisas não foram diferentes. O alarme tocou e eu pensei "já!?". Preciso era: ir à luta. Mas antes disso, resposta rápida para dúvidas básicas:

1 - Será que eu preciso tomar banho?
2 - Se precisar, será que dá tempo?
3 - Tenho roupa passada?
4 - Se não tiver, tenho alguma que não preciso passar?
5 - Se não tiver nem uma coisa nem outra, posso sair sem roupa?

Bom, na pior das hipóteses, saio com a roupa meio amarrotada mesmo. Porque, assim como Ronaldo não pode raspar a cabeça, não posso sair sem roupa.

Antes de começar o dia pra valer, precisava enviar uma carta pelo correio. Fácil. Imprimi os arquivos, preenchi os dados necessários, lacrei o envelope. Então, era só chegar à agência amarelinha e fazer o despacho (no sentido não-espiritual da coisa). Até então tinha feito tudo muito rápido, porque havia levantado um pouco atrasado. No caminho para os Correios, meu passo era veloz, o suficiente para não parecer que estava correndo. Até porque, sempre que vejo pessoas correndo pelas ruas, penso que elas querem ir ao banheiro (urgentemente). É constrangedor (para elas). Logo, não corro para não pensarem isso de mim.

Mas eu estava com a pressa habitual de quem sempre parece ter mil coisas para fazer. No caminho passei por uma senhora, que também tinha um envelope nas mãos, e percebi que se eu fosse mais rápido não teria que esperar muito pelo atendimento. Acelerei o passo.

Cheguei à agência. Aquela bagunça de sempre: pacotes por todos os lados, ninguém mandando carta, ninguém atendendo. Ao perceber minha presença, uma das moças no meio da bagunça disse para eu esperar um pouco. Eu esperei. Bastante. Tanto que a senhora que ficou pelo caminho, acabara de chegar à agência.

- Eu quero mandar uma carta!

Disse bem alto, meio que para todo mundo, meio que para ninguém. Eu acho interessante essa mania que algumas pessoas mais velhas tem de anunciar o óbvio. Às vezes parece simpático, outras vezes, irritante. Dessa vez confesso que foi simpático.

Alertada, a atendente veio em nossa direção e parecia buscar na memória alguma informação:

- Você chegou primeiro... disse ela apontando para mim.

Mas parecia que ela não tinha terminado a frase e eu já havia entendido o recado: Thiago, passe a vez.

- Pode atendê-la primeiro, disse eu, voltando os olhos para a senhora.

Cedi a minha vez, que de certa forma, não era minha por direito. Tem que existir compreensão também, que é mais poética que respeito... E olha que eu havia me apressado tanto. Antes de ser atendida, a senhora olhou para mim e disse:

- Obrigada! - e voltando-se para a atendente - Cola um selo pra mim!

Novamente óbvia. E novamente simpática. Perguntou quanto tempo demoraria para a carta chegar ao seu destino e descobriu que levaria sete dias. Antes de partir, disse novamente, dando um tapinha em minhas costas:

- Obrigada!

Fui então atendido e pude me livrar da carta. Depois que saí da agência, percebi que de nada adiantou eu ter me apressado tanto. A gente supervaloriza nosso tempo. E acha isso normal. No caminho de volta, a senhora, que eu ultrapassara para não perder tempo, estava muito na minha frente.

Isso tudo foi apenas uma lição para mostrar o meu egoísmo sobre o tempo. Tempo que não gosto de dividir, que sempre acho que vai acabar, que quase nunca disponho aos outros. O homem tem dificuldades para aceitar o desconhecido. O fato de não sabermos quando os nossos dias vão acabar faz com que sejamos tomados pela pressa e pela vontade de querer viver tudo ao mesmo tempo.

A carta que aquela senhora mandou era destinada a alguém de Campo Belo - MG. Percebi porque achei muito bonita a grafia de quem escreveu no envelope. E penso que talvez aquela seja uma carta para alguém que anseia por notícias e que só irá recebê-las daqui sete dias ou até mais. Enquanto isso, a famosa senhora também vai esperar. O que são sete dias para ela? E de pensar que fiquei irritado ao saber que o documento que eu enviei não poderia ser mandado por e-mail. Um documento sem valor sentimental, que nem anseiam por ele. Que, segundo a balança dos correios, pesa 0,00500kg de pura falta de interesse. O que são sete dias para mim?

Talvez envelhecer seja se desprender de todo esse egoísmo sobre o tempo. É saber que o slogan de viver a vida intensa e loucamente é, em geral, falso. E que é preciso saber esperar. Até que o tempo prove o contrário, o fim está longe, muito longe de chegar. Vida eterna, sobre o solo da Mãe Terra, para nós!

6 comentários:

Fernanda disse...

tiago lindo teu texto,vc tem um dom pra cronicas^^

Fernanda disse...

e sobre as cartas...elas são tão lindas né,cartas sao um pedacinho da gente,acho lindo o trabalho que algumas pessoas ainda tem quando escrevem cartas,dedicam um tempinho pra escrever e tal..
impressionante como teus texto me fazem mergulhar na memoria e lembrar de coisas...


eu tinha comentado ai em cima,mas precisava escrever mais coisa,tinha necessidade de dizer o quanto teus textos me fazem lembrar de certas coisas^^

SUSANA disse...

Você tem escrito cada vez melhor (se é que isso é possível). Adoro escrever cartas, mas não gosto tanto de mandá-las ou entregá-las pessoalmente. É meio egoísta, como se, escrevendo, eu só suprisse a minha necessidade de dizer. Então, meio a contra gosto (tem hífen? é tudo junto?), eu as entrego. Nunca se sabe da necessidade que os outros têm de ler, sentir, saber. Claro que eu sei que minha mãe me ama, mas ouvir isso é diferente de deduzir. Faz tempo que não escrevo para meus amigos (hoje de manhã mesmo pensei nisso...). E como esse comentário está quase uma epístola, vou parar por aqui.

Mil beijos. Adoro-te!!!

Caco disse...

É isso aí, tem que viver intensamente, mas sem pressas.

Ana Aitak disse...

Gosto muito desse tipo de texto, é mais raro de vc escrever por aqui né, mais igualmente surpreendente. bjuss

Juliana disse...

ehehehe
Nao sei como os velinhos conseguem. mas pra mim eles sao simpaticos e irritantes ao mesmo tempo, nos contando coisas desnecessarias na fila de comprar pao, no banco ao lado no onibus, afinal, pq precisamos saber se possuem sete filhos ou vinte?se seus netos sao educados e estudiosos?Entao, enqto ouço coisas desnecessarias lá estao eles, com olhinhos brilhantes e com um leve sorriso, mostrando toda a experiencia, querendo nos dizer que nao adianta sermos apressados, preocupados, desesperados e que as coisas se encaixam e acontecem independetes de nossas afliçoes ou felicidade.
"...o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós."
^^