sexta-feira, 17 de outubro de 2008

a história do menino.

O menino, que vivia no mundo dos corações perecíveis, estava com um baita problema. Esqueceram de gravar em seu coração a data de validade. Todo mundo tinha, menos o menino. Logo, o menino amaria para sempre. Ele tentou falar pra mãe, mas a mãe não levou a sério. " O menino tem essa mania de achar problema em tudo", disse a mãe. Tentou falar pro pai, mas o pai via o jogo na TV, e nunca o menino atrapalhava o pai nesse momento. Uma vez atrapalhou, mas o menino levou tanta chinelada que hoje em dia ele nem respira perto da tv em dia de jogo.
E foi assim que esqueceram de gravar no coração do menino a data de validade: aquele ano era ano de Copa. Aquele dia, era dia de jogo do Brasil. O pai do menino quase teve um ataque dos rins quando teve que largar a tv para levar a mãe do menino para o hospital. O médico tirou o menino de dentro da mãe e voltou correndo pra salinha da tv, junto com o pai do menino. E deu nisso, o menino estava condenado a amar todo dia.
O menino amava tanto e sem parar que um dia o pai e a mãe levaram o menino pro médico (na verdade, levariam o menino antes, mas justo no dia teve jogo das eliminatórias da Copa, dai o pai não levou o menino). O médico examinou aqui, ali... O menino respirava aqui, ali. O médico não sabia o que o menino tinha. "Virose", disse então. Deitaram o menino na cama. Por meses. Mas o menino não sarava da tal doença.
O menino amava o cãozinho, amava os irmãos e até os primos. O pai colocou o menino pra ser juiz de futebol. Mas não deu certo porque o menino era justo demais. Aquilo deixava o pai irritado demais. A mãe levou o menino para ser coroinha. O menino era um anjo. Então não deu certo, a mãe pensou que o menino estava competindo com Anjo Gabriel só pra deixar a avó irritada. Tirou o menino da igreja. "Não há nada que dê jeito no menino", disse a avó. Na escola, o menino não passava de ano. Motivo: amava demais a professora. Não queria mudar de turma. Solução: falaram pro menino que se ele passasse de ano a professora iria junto. O menino passou de ano, a professora não foi junto. Machucaram o menino desse jeito. Na verdade, machucaram o menino muitas vezes. O que mais machucava o menino era saber que ele amava, mas as pessoas que rodeavam o menino amavam com limitações. Assim sendo, não amavam. Ao mesmo tempo que o menino foi condenado a amar, ele foi condenado a sofrer. O menino foi ficando triste, e seguiu triste até que um dia o menino acordou bem. Estava feliz, estava como todos os outros.
Mas de repente, o menino puxou o cabelo da prima, grudou chiclete na calça do pai e xingou a mãe. Surpresos, levaram o menino no médico. "Virose", disse o médico mais uma vez.
O menino percebeu então, com os dias, que ele também estava amando pela metade. Ele estava curado. O menino descobriu então que o seu coração já não era imperecível. O menino ficou triste, afinal amar era uma coisa boa. Mas o menino percebeu também que ele tinha deixado de sofrer tanto.
O menino cresceu e descobriu que para deixar de sofrer, as pessoas abrem mão de amar. Amar de verdade. O prazo de validade brotou no coração do menino no exato momento em que ele se tornou um homem.
O sonho do menino era ser uma árvore com muitas frutas doces. O sonho do homem é ser lenhador. Crescer, às vezes, significa sacrificar. Sacrificar sem necessidade de sacrificar.
Por que? Ora essa, matar é mais fácil do que cultivar.

//Thi

3 comentários:

Ana disse...

Puxa, assim você emociona a gente, hein Thiago!

Juliana disse...

Essa historia eu salvo aqui...tah perfeita...como ana disse, emocionante!
bjokas thiiiiiiii

o MeninO do lado__ disse...

Caracas!Essa eu ainda não tinha lido...

Meu sério, eu quase chorei de tão simples e sensivel que foi o texto

=D